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Mas, graças à sua coragem e persistência, revalidou o...

Leia atentamente o texto a seguir para responder às questões de 1 a 15.


A poluição nossa de cada dia


Ela era professora universitária. Imigrante dos confins

da Europa, enxergava o Brasil como o paraíso que nunca veio

a se confirmar. Mas, graças à sua coragem e persistência,

revalidou o diploma universitário e, mesmo quase vencida

5 pela burocracia, fez a vida e conquistou espaço em uma

universidade de ponta do país. Marcante, ela não conseguia

entender por que todos sabiam quando telefonava, mesmo

não tendo deixado recado: é que passados 30 anos o sotaque

seguia sendo uma de suas marcas e a denunciava, mesmo

10 sem querer. A imagem que fazemos de nós mesmos, na

maioria das vezes, não corresponde à realidade.

Quando as filhas se encontraram com a maturidade, a

vida encaminhava para um momento de plenitude. Foi então

que chegou a notícia, a mesma que, com variações, cedo ou

15 tarde, chegará para todos nós: o anúncio de um tumor no

pulmão, mesmo sem nunca ter colocado um cigarro na boca.

Susto, angústia, tosse, tosse, tosse, consternação familiar e,

mais uma vez, a constatação de que não podemos adiar o que

desejamos na vida.

20 O ISS (Instituto Saúde e Sustentabilidade) vem

revelando há muito tempo que 4.700 pessoas morrem por

doenças respiratórias na cidade de São Paulo a cada ano. O

número é quatro vezes maior do que outro que nos assombra

e ganha cada vez mais espaço na sociedade – o de homicídios

25 na cidade –, mas é desconhecido da maioria das pessoas e

desconsiderado pelos gestores públicos. A poluição na cidade

nos atinge de maneira que não imaginamos, provocando

múltiplas sequelas de difícil correlação.

Recentemente, a ONU anunciou estudo que indica que

30 99% das pessoas no mundo respiram ar poluído. A respeitada

revista Lancet publicou outro trabalho, que mostra a poluição

como responsável por nove milhões de mortes prematuras no

mundo. No afã de gerar crescimento, a humanidade insiste

em não compreender os impactos do atual modelo de

35 desenvolvimento. Algumas pessoas, conscientes dos riscos

que corremos, tocam sinos, mas a maioria faz ouvidos moucos

e segue tocando a vida com pressa – a "alma dos nossos

negócios", como diz Paulinho da Viola em "Sinal Fechado" –

sem se dar conta dos impactos que produzem.

40 Nesse contexto, cabe ao poder público ter a visão do

que nos atinge e antecipar decisões. A poluição mais cruel

vem das partículas finas que aspiramos e entram na corrente

sanguínea, causando impactos cardiovasculares e

respiratórios. São produzidas, sobretudo, pelo diesel do

45 transporte coletivo. Políticas públicas de modernização dos

motores da frota de ônibus, por exemplo, reduziriam muito os

riscos de morte da população. Um exemplo recente vem da

Prefeitura de São Paulo, que proibiu a compra de ônibus

movidos a diesel, o que pode gerar referência para outras

50 cidades brasileiras.

Além disso, as cidades não monitoram a qualidade do

ar segundo os padrões exigidos pelos órgãos internacionais.

Há interesses por trás dessa complacência, pois a medição

enviesada – como se um termômetro só acusasse febre ao

55 atingir 40 graus – prejudica o diagnóstico de uma enorme

quantidade de pessoas que adoecem, mas beneficia

financeiramente grupos econômicos que querem adiar as

mudanças, evitando investimentos no curto prazo.

Ainafets era seu estranho nome, a combinação de

60 prefixos e sufixos dos nomes de personagens dos romances

favoritos de seus pais. Talvez inspirada por isso, ela mesma

vivia o romance de sua vida, extraindo o que havia de belo de

situações inóspitas, como se tentasse escapar das agruras da

realidade. Mas, na primavera dos 60 anos, recebeu a notícia

65 que não imaginava. A poupança acumulada até então,

calculada segundo os manuais de investimentos, fez com que

a ideia de viver do juro da aplicação, que supostamente

financiaria os tempos de bonança da aposentadoria, fosse

direcionada para os exames e as duvidosas cirurgias que lhe

70 prometiam mais um tempo de vida.

O que importava era ganhar algum tempo, mesmo que

indeterminado. Os encontros procrastinados, as declarações

não ditas, as viagens postergadas e os prazeres adiados não

mais seriam vividos. As filhas e o marido ficaram respirando

75 saudade enquanto a poluição da cidade seguia incólume na

busca de novas vítimas.

Até quando estaremos sujeitos aos interesses privados

em detrimento do público? Na mobilidade, nos resíduos, na

iluminação, nas obras, nas redes sociais. O moderno, o atual,

80 a inovação, não são necessariamente as soluções

supertecnológicas. O novo, em um país como o Brasil, é

resolver velhos problemas, que atingem a maioria das

pessoas e que fomos incapazes de solucionar até agora: a

pobreza, o saneamento, a renda digna, a habitação, a

85 violência, a educação, a saúde e a poluição do ar e das águas.

O moderno é a inversão de prioridades, é a coragem de

enfrentar poderosos insensíveis e invisíveis, é investir nos

mais vulneráveis, é reduzir as desigualdades, é o respeito e a

solidariedade. São valores universais que existem há muito

90 tempo, mas andam esquecidos diante de um apelo superficial

ao moderno, que coloca os algoritmos e a inteligência

artificial acima das necessidades básicas.

Chegará o dia em que o interesse comum e público será

o protagonista dos tempos. E então? Então pode ser que se

95 faça luz.


(Jorge Abrahão. Coordenador-geral do Instituto Cidades Sustentáveis,

organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades

Sustentáveis. 22.mar.2023. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jorge-abrahao/

2023/03/a-poluicao-nossa-de-cada-dia.shtml)

Mas, graças à sua coragem e persistência, revalidou o diploma universitário e, mesmo quase vencida pela burocracia, fez a vida e conquistou espaço em uma universidade de ponta do país. (L.3-6)


No período acima, o segmento sublinhado apresenta valor semântico de


A

explicação.


B

causa.


C

tempo.


D

concessão.


E

condição.