Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
Lacração
Por Cláudio Moreno
- Já perguntaram várias vezes por que esta coluna não trata de palavras da gíria. A resposta
- é muito simples: a gíria é uma área da linguagem que não tem permanência; ela é tão fuga...
- e, pior ainda, tão veloz, que muitas vezes o que uma palavra valia no sábado deixou de valer na
- segunda-feira. Escrever sobre elas lembra o comovente trabalho de quem faz aqueles castelos
- na areia que as ondas vão apagar assim que forem concluídos, se não antes.
- Na verdade, quase todas são palavras legítimas, algumas já velhuscas, outras do tempo
- em que Adão escrevia a Bíblia; a "novidade" da gíria é apenas o sentido com que são
- empregadas. Como nós outros: podemos mudar de roupa, de peso, de corte de cabelo e até de
- sexo, mas vamos continuar a funcionar eternamente como o mesmo organismo que a Natureza
- deu aos humanos. Por isso, mesmo não entendendo muito de gíria, estou habilitado a responder
- ___ leitora de São Luís, do Maranhão, que assina com o bonito nome de Lourença: "Professor,
- nas redes hoje só se fala em lacração, mas eu gostaria de saber se o certo não
- seria lacreação".
- Prezada Lourença: a resposta é não — e explico por quê. As palavras derivadas são
- geradas dentro dos mesmos princípios genéticos que regulam os seres vivos: oncinhas só podem
- nascer de onças, pinguin...inhos de pinguins. Ora, os incontáveis substantivos derivados com o
- sufixo –ção só podem nascer de verbos: remover, remoção; absolver, absolvição; lacrar,
- lacração — ou baldear, baldeação; acarear, acareação; chatear, chateação. Como vês,
- uma forma como *lacreação só poderia nascer de *lacrear — que não existe.
- Aproveito o texto da tua mensagem para comentar o destino de alguns vocábulos. Paulo
- Rónai, húngaro de nascimento, fugiu ao horror nazista e veio enriquecer o Brasil com sua cultura
- e sua erudição. Entre outras coisas, ele coordenou a monumental tradução da Comédia
- Humana, de Balzac, o que dá ___ antiga Editora Globo, de Porto Alegre, um lugar de honra no
- museu do escritor em Paris, ao lado das raras edições completas da Comédia existentes no
- planeta.
- Rónai conta que, ainda morando na Hungria, já traduzia poetas portugueses e brasileiros,
- mas estranhava certos vocábulos que só foi entender completamente quando chegou aqui. O
- primeiro era morro, onipresente em nossa poesia e em nosso cancioneiro popular, sempre
- associado ___ vida triste e miserável — o que era estranho para ele, que vinha de um continente
- em que os lugares mais elevados sempre tinham sido um privilégio da nobreza e da alta
- burgue...ia. Ao chegar ao Rio de Janeiro, no entanto, entendeu tudo já no primeiro dia.
- O outro vocábulo era rede; o fato de nossos poetas cismarem na rede, sonharem
- na rede era um mistério para ele. Como não poderia se tratar de rede de pesca, imaginou que
- a palavra estivesse sendo usado em sentido metafórico, algo assim como a rede de pensamentos,
- a rede de vagas sensações. Só aqui foi compreender que nossos poetas gostavam mesmo é de
- divagar na horizontal...
- Neste séc. 21 a palavra rede, especialmente usada no plural, ganhou outro importante
- sentido. Frases como "Ela passa o dia inteiro lidando nas redes" são imediatamente decifradas
- por nós, que acionamos automaticamente o seletor de significados — mas serão enigmáticas
- para um tradutor do futuro, que terá de avaliar muito bem o contexto para descobrir ▲ que
- diabo se está falando.
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/claudio-moreno– texto adaptado especialmente para esta prova).