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Leia o texto para responder às questões de números 01 a 10.
Profusão de gênios é a expressão da nossa decadência cultural
Não me lembro da última vez que li uma crítica literária severa. Essas raridades praticamente inexistem: tudo é genial, ou quase genial.
Hoje os gênios, e não os medíocres, são a maioria – o que não deixa de ser uma contradição com aquilo que sabemos ou intuímos sobre a genialidade (e a mediocridade). Não deveria ser ao contrário? Uma abundância de medíocres e uma escassez de verdadeiros talentos?
E não é exclusivo dos livros. Tempos atrás, o crítico de teatro Lloyd Evans indignava-se justamente por já não haver vaias no teatro. Durante toda a sua história, desde a Grécia Antiga, o público sempre castigou as más peças ou os maus atores com assobios e outras sonoridades.
Atualmente, qualquer espetáculo é recebido com aplausos festivos. E, quando isso não acontece, é por razões extrateatrais. Um exemplo recente: no musical “Cinderela”, de Andrew Lloyd Webber, o público protestou, mas não pela qualidade da obra. A causa da indignação foi uma carta do próprio Webber em que ele se referia a “Cinderela” como “um erro dispendioso”.
Eis o estado a que se chegou: nem ao autor é permitido um gesto de autocrítica. Como explicar esse clima enjoativo de elogios?
Cabeças otimistas dirão que as letras e as artes nunca estiveram tão bem, com dezenas de obras-primas todas as semanas.
Cabeças humanistas dirão que as críticas implacáveis fazem parte de um passado em que o gosto de ver sangue era maior do que a vontade de informar ou ilustrar.
Eu prefiro as cabeças realistas, para quem a generosidade crítica se explica pela ignorância de quem não sabe “discriminar”.
Discriminar pode, dependendo do contexto, significar agir preconceituosamente. No entanto, a discriminação, quando entendida como capacidade de separar a excelência da mediania e do lixo, é um processo vital para qualquer cultura que se preze. Os leitores e os autores precisam de críticas antipáticas. Nem que seja para confrontar as suas certezas e confortos com um banho de exigência.
Como autor, agradeço todas as tareias* honestas de quem soube furar, com conhecimento de causa, as minhas derivas autocomplacentes. Não digo nomes, até porque tenciono vingar-me um dia com a mesma honestidade, mas eles nem imaginam como afinaram a minha pena.
A bondade crítica que corrompe artistas e público é a expressão máxima da decadência cultural: uma forma preguiçosa de multiplicar gênios pela incapacidade de reconhecer um talento que seja.
(João Pereira Coutinho. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2022/06/profusao-de-genios-sem-talento-e-a-expressao-da-nossa-decadencia-cultural.shtml Publicado em 27.06.2022. Adaptado)
*tareias: pancadas, sova, maus-tratos
Em conformidade com a norma-padrão de regência nominal, e com o sentido do texto, está correto o trecho reescrito na alternativa:
E não é exclusivo dos livros. → E não é apenas pertinente dos livros.
… em que ele se referia a “Cinderela” como “um erro dispendioso”. → em que ele fazia alusão com “Cinderela” como “um erro dispendioso”.
Como autor, agradeço todas as tareias honestas… → Como autor, sou grato para todas as tareias honestas…
… mas eles nem imaginam como afinaram a minha pena. → mas permanecem alheios com a colaboração para afinar minha pena.
… multiplicar gênios pela incapacidade de reconhecer um talento que seja. → … multiplicar gênios pela inépcia para reconhecer um talento que seja.