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No período Só depois é que pensava com satisfação [...]...

Para responder às questões de 01 a 09, leia o texto abaixo.


A Hora da Estrela


1 Devo registrar aqui uma alegria. É que a moça

2 num aflitivo domingo sem farofa teve uma inesperada

3 felicidade que era inexplicável: no cais do porto viu um

4 arco-iris. Experimentando o leve êxtase, ambicionou

5 logo outro: queria ver, como uma vez em Maceió,

6 espocarem mudos fogos de artifício. Ela quis mais

7 porque uma verdade que quando se dá a mão, essa

8 gentinha quer todo o resto, o zé-povinho sonha com

11 fome de tudo. E quer mas sem direito algum, pois não

10 é? Não havia meio — pelo menos eu não posso — de

11 obter os multiplicantes brilhos em chuva chuvisco dos

12 fogos de artifício. Devo dizer que ela era doida por

13 soldado? Pois era. Quando via um, pensava com

14 estremecimento de prazer: será que ele vai me matar?

15 Se a moça soubesse que minha alegria também

16 vem de minha mais profundo tristeza e que tristeza era

17 uma alegria falhada. Sim, ela era alegrezinha dentro

18 de sua neurose. Neurose de guerra. E tinha um luxo,

19 além de uma vez por mês ir ao cinema: pintava de

20 vermelho grosseiramente escarlate as unhas das

21 mãos. Mas como as roía quase até o sabugo, o

22 vermelho berrante era logo desgastado e via-se o sujo

23 preto por baixo.

24 E quando acordava? Quando acordava não sabia

25 mais quem era. Só depois é que pensava com

26 satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de Coca-

27 Cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto

28 do dia representando com obediência o papel de ser.

29 Será que eu enriqueceria este relato se usasse alguns

30 difíceis termos técnicos? Mas aí que está: esta história

31 não tem nenhuma técnica, nem estilo, ela é ao deus-

32 dará. Eu que também não marcharia por nada deste

33 mundo com palavras brilhantes e falsas uma vida

34 parca como a da datilógrafa. Durante o dia eu faço,

35 como todos, gestos despercebidos por mim mesmo.

36 Pois um dos gestos mais despercebidos é esta história

37 de que não tenho culpa e que sai como sair. A

38 datilógrafa vivia numa espécie de atordoado nimbo,

39 entre céu e inferno. Nunca pensara em “eu sou eu”.

40 Acho que julgava não ter direito, ela era um acaso. Um

41 feto jogado na lata de lixo embrulhado em um jornal.

42 Há milhares como ela? Sim, e que são apenas um

43 acaso. Pensando bem: quem não é um acaso na vida?

44 Quanto a mim, só me livro de ser apenas um

45 acaso porque escrevo, o que é um ato que é um fato,

46 É quando entro em contato forças interiores minhas,

47 encontro através de mim o vosso Deus. Para que

48 escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, às vezes

49 também penso que eu não sou eu, pareço pertencer a

50 uma galáxia longínqua de tão estranho que sou de

51 mim. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro, À

52 nordestina não acreditava na morte, como eu já disse,

53 pensava que não — pois não é que estava viva?

54 Esquecera os nomes da mãe e do pai, nunca

55 mencionados pela tia. (Com excesso de desenvoltura

56 estou usando a palavra escrita e isso estremece em

57 mim que fico com medo de me afastar da Ordem e cair

58 no abismo povoado de gritos: o Inferno da liberdade

59 Mas continuarei.) Continuando.



Autora: Clarice Lispector (adaptado).

No período Só depois é que pensava com satisfação [...] (25-26), tem-se uma oração classificada como:


A

Subordinada substantiva objetiva direta.


B

Subordinada substantiva objetiva indireta.


C

Subordinada substantiva subjetiva.


D

Subordinada substantiva predicativa.


E

Subordinada substantiva completiva nominal.