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Texto para responder às questões 10 e 11.
1 Ao partir para estudar em Coimbra, em 1783, José
Bonifácio tinha 20 anos; voltava com 56. A simples
colônia que deixara subira à categoria de reino e era a sede
4 da monarquia, com ares de metrópole, em uma como que
inversão de papéis. As consequências daí advindas feriam o
olhar do observador menos atento. Bem diverso se
7 apresentava, por exemplo, o Rio de Janeiro. A despeito do
negativismo da fidalguia parasitária que acompanhara a
família real na transladação para o Brasil, muita coisa
10 melhorara na fisionomia urbana, e novos bairros, mais
pitorescos, como o Catete e Botafogo, foram surgindo.
Tornara-se mais ativa toda a vida da cidade; a
13 existência da Corte e de um corpo diplomático dava-lhe
ensejo a um esboço de mundanismo. Mais importantes do
que isso eram as iniciativas de ordem administrativa,
16 econômica e cultural. Nem sempre as medidas tomadas
seriam adequadas, e havia muito do mau espírito de
improvisação, de ensaios e tentativas a que faltavam base
19 segura. Sobretudo não se ia ao fundo das coisas. Cuidava-se
de pôr em funcionamento um aparelho administrativo
completo; criavam-se repartições públicas, tribunais,
22 estabelecimentos de ensino e tipografias; editavam-se obras
várias (até de Voltaire); fundavam-se os primeiros jornais
brasileiros; tratava-se de agricultura, de minas, de fundição
25 de ferro; buscava-se desenvolver os meios de comunicação
e de transporte. Mas não se tocava no essencial – o regime
de propriedade e de trabalho.
28 Aparências de civilização e de progresso José
Bonifácio vinha encontrar, e isto lhe dava, à primeira vista,
satisfação. À sua visão de cientista e de pensador,
31 entretanto, não escapavam os aspectos mais profundos dos
problemas brasileiros. E fixou-os logo, na sua nudez, tal
como os exporia pouco depois em documentos públicos.
34 Ele que, em fórmula perfeita, achava que “a sociedade civil
tem por base primeira a justiça, e por fim principal a
felicidade dos homens”, não compreendia como poderia
37 haver verdadeira liberdade em um país onde o trabalhador
era quase exclusivamente o escravo negro e em que a
economia se organizara em benefício de uma classe
40 privilegiada. Sem se deixar iludir por exterioridades,
entendia que era necessária de partida a “expiação de
crimes e pecados velhos”. Crimes e pecados velhos contra
43 os negros que chegavam ao Brasil aos milhares, abafados
no porão dos navios e mais apinhados do que fardos de
fazenda; crimes e pecados velhos que ele vinha encontrar
46 mais florescentes, prestigiados e impunes do que nunca. A
primeira medida a se adotar, a seu parecer, consistia na
abolição imediata do tráfico africano “tão bárbaro e
49 carniceiro”; a segunda, na extinção da escravatura.
Fora considerável, sem dúvida, a obra propriamente
política realizada, mas havia outra, de natureza social e
52 econômica a empreender, mais importante e mais difícil. E
nenhum dos seus pontos fundamentais escapou à argúcia
de José Bonifácio – abolição do tráfico, extinção da
55 escravidão, transformação do regime da propriedade
agrária com a substituição do latifúndio pela subdivisão das
terras de modo a “favorecer a colonização de europeus
58 pobres, índios, mulatos e negros forros”, preservação das
matas e renovação das florestas, localização adequada das
60 novas vilas e cidades, para só citar estes.
SOUZA, Otávio Tarquínio de. História dos fundadores do Império do Brasil.
Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2015. 5 v., com adaptações.
Com base nas ideias do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
Certos trechos do terceiro e do quarto parágrafos foram colocados entre aspas porque correspondem a falas literais de José Bonifácio e a expressões usadas por ele.
Certo
Errado