Imagem de fundo

Analise as afirmações seguintes e depois assinale a...

TEXTO

Olhai os lírios do campo

Érico Veríssimo


1 Eugênio acende a pequena lâmpada ao pé

2 do sofá, relê a carta que Olívia lhe escreveu

3 poucas horas antes de morrer. Encontrou-a ali

4 em cima daquela mesma mesa ao voltar do

5 enterro. No envelope estava escrito

6 simplesmente: – Para Eugênio.

7 “Meu querido: o Dr. Teixeira Torres acha

8 que a intervenção deve ser feita imediatamente

9 e daqui a pouquinho tenho que ir para o

10 hospital. Não sei por que me veio a ideia de

11 que posso morrer na mesa de operações e aqui

12 estou te escrevendo porque não me perdoaria a

13 mim mesma se me fosse embora desta vida

14 sem te dizer umas quantas coisas que não te

15 diria se estivesse viva.

16 Há pouco sentia dores horríveis, mas

17 agora estou sob a ação da morfina e é por isso

18 que encontro alguma tranquilidade para

19 conversar contigo. Mas estarei mesmo

20 tranquila? Acho que sim. Decerto é a

21 esperança de que tudo corra bem e que daqui a

22 quinze dias eu esteja de novo no meu quarto,

23 com a nossa filha, e meio rindo e meio

24 chorando venha a reler e rasgar esta carta, que

25 então me parecerá muito tola e ao mesmo

26 tempo muito estranha.

27 Quero falar de ti. Lembras-te daquela tarde

28 em que nos encontramos nas escadas da

29 Faculdade? Mal nos conhecíamos, tu me

30 cumprimentaste com timidez, eu te sorri um

31 pouco desajeitada e cada qual continuou o seu

32 caminho. Tu naturalmente me esqueceste no

33 instante seguinte, mas eu continuei pensando

34 em ti, e não sei por que fiquei com a certeza de

35 que havias de ter uma grande, uma imensa

36 importância na minha vida. São

37 pressentimentos misteriosos que ninguém

38 consegue explicar.

39 Hoje tens tudo quanto sonhavas: posição

40 social, dinheiro, conforto, mas no fundo te

41 sentes ainda bem como aquele Eugênio

42 indeciso e infeliz, meio desarvorado e amargo

43 que subia as escadas do edifício da Faculdade,

44 envergonhado da sua roupa surrada. Continuou

45 em ti a sensação de inferioridade (perdoa que

46 te fale assim), o vazio interior, a falta de

47 objetivos maiores. Começas agora a pensar no

48 passado com uma pontinha de saudade, com

49 um pouquinho de remorso. Tens tido crises de

50 consciência, não é mesmo? Pois ainda

51 passarás horas mais amargas e eu chego até a

52 amar o teu sofrimento, porque dele, estou certa,

53 há de nascer o novo Eugênio.

54 Uma noite me disseste que Deus não

55 existe, porque em mais de vinte anos de vida

56 não pudeste encontrar. Pois que até nisso se

57 manifesta a magia de Deus. Um ser que existe

58 mas é invisível para uns, mal e mal perceptível

59 para outros e duma nitidez maravilhosa para os

60 que nasceram simples ou para os que

61 adquiriram simplicidade por meio do sofrimento

62 ou duma funda compreensão da vida. Dia virá

63 em que em alguma volta do teu caminho hás de

64 encontrar Deus. Um amigo meu, que se dizia

65 ateu, nas noites de tormenta desafiava Deus,

66 gritava para as nuvens, provocando o raio.

67 Deus é tão poderoso que está presente até nos

68 pensamentos dos que dizem não acreditar na

69 sua existência. Nunca encontrei um ateu

70 sereno. Eles se preocupam tanto com Deus

71 como o melhor dos deístas.

72 O argumento mais fraco que tenho contra

73 o ateísmo é que ele é absolutamente inútil e

74 estéril; não constrói nada, não leva a coisa

75 nenhuma.

76 Se soubesses como tenho confiança em ti,

77 como tenho certeza na tua vitória final...

78 Deixo-te Anamaria e fico tranquila. Já

111estou vendo vocês dois juntos e muito amigos

80 na nova vida, caminhando de mãos dadas.

81 Pensa apenas nisto: há nela muito de mim e

82 principalmente muito de ti. Anamaria parece

83 trazer escrito no rosto o nome do pai. É uma

84 marca de Deus, Genoca, compreende bem isto.

85 Vais continuar nela: é como se te fosse dado

86 modelar, com o barro de que foste feito, um

87 novo Eugênio.

88 Quando eu estava ainda em Nova Itália, li

89 muitas vezes o teu nome ligado ao do teu

90 sogro, em grandes negócios, sindicatos,

91 monopólios e não sei mais quê. Estive

92 pensando muito na fúria cega com que os

93 homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a

94 causa principal dos dramas, das injustiças, da

95 incompreensão da nossa época. Eles

96 esquecem o que têm de mais humano e

97 sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor:

98 as relações de criatura para criatura. De que

99 serve construir arranha-céus se não há mais

100 almas humanas para morar neles?

101 Quero que abras os olhos, Eugênio, que

102 acordes enquanto é tempo. Peço te que pegues

103 a minha Bíblia que está na estante de livros,

104 perto do rádio, leias apenas o Sermão da

105 Montanha. Não te será difícil achar, pois a

106 página está marcada com uma tira de papel. Os

107 homens deviam ler e meditar nesse trecho,

108 principalmente no ponto em que Jesus nos fala

109 dos lírios do campo que não trabalham nem

110 fiam, e no entanto nem Salomão em toda a sua

111 glória jamais se vestiu como um deles.

112 Está claro que não devemos tomar as

113 parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar

114 deitados à espera de que tudo nos caia do céu.

115 É indispensável trabalhar, pois um mundo de

116 criaturas passivas seria também triste e sem

117 beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido

118 humano às nossas construções. E quando o

119 amor ao dinheiro, ao sucesso, nos estiver

120 deixando cegos, saibamos fazer pausas para

121 olhar os lírios do campo e as aves do céu.

122 Não penses que estou fazendo o elogio do

123 puro espírito contemplativo e da renúncia, ou

124 que ache que o povo deva viver narcotizado

125 pela esperança da felicidade na “outra vida”. Há

126 na Terra um grande trabalho a realizar. É tarefa

127 para seres fortes, para corações corajosos. Não

128 podemos cruzar os braços enquanto os

129 aproveitadores sem escrúpulos engendram os

130 monopólios ambiciosos, as guerras e as intrigas

131 cruéis. Temos de fazer-lhes frente. É

132 indispensável que conquistemos este mundo,

133 não com as armas do ódio e da violência e sim

134 com as do amor e da persuasão. Considera a

135 vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem

136 de ação e não um puro contemplativo.

137 Quando falo em conquista, quero dizer a

138 conquista de uma situação decente para todas

139 as criaturas humanas, a conquista da paz

140 digna, do espírito de cooperação.

141 E quando falo em aceitar a vida não me

142 refiro à aceitação resignada e passiva de todas

143 as desigualdades, malvadezas, absurdos e

144 misérias do mundo. Refiro-me, sim, à aceitação

145 da luta necessária, do sofrimento que essa luta

146 nos trará, das horas amargas a que ela

147 forçosamente nos há de levar.

148 Precisamos, portanto, de criaturas de boa

149 vontade. E de homens fortes como esse teu

150 amigo Filipe Lobo, que seria um campeão da

151 nossa causa se orientasse a sua ambição, o

152 seu ímpeto construtor e a sua coragem num

153 sentido social e não apenas egoisticamente

154 pessoal.

155 Não sei, querido, mas acho que estou

156 febril. Este entusiasmo, portanto, vai por conta

157 da febre.

158 Ouço agora um ruído. Deve ser a

159 ambulância que vem me buscar. Senti um

160 calafrio e parece que minha coragem teve um

161 pequeno desfalecimento. Estás vendo o tremor

162 da minha letra? É que sou humana, Genoca,

163 profundamente humana, tão humana que te

164 confesso corando um pouco (apesar dos trinta

165 anos e da profissão), que antes de ir para o

166 hospital eu quisera beijar-te muito e muito.

167 Anamaria fica com D. Frida. Sei que

168 depois, se eu morrer, virás buscá-la para a

169 nova vida.

170 Reli o que acabo de escrever. Estou

171 fazendo um esforço danado para não chorar.

172 Tolice! Espero que tudo corra bem e que dentro

173 de duas semanas eu esteja queimando esta

174 carta, que já agora me parece um pouco

175 melodramática.

176 Antes que esqueça: na gaveta da cômoda

177 há um maço de cartas que te escrevi de Nova

178 Itália expressamente "para não te mandar".

179 Agora, podes lê-las todas. Não encontrarás

180 nada do meu passado, do qual nunca te falei e

181 sobre o qual tiveste a delicadeza de não fazer

182 perguntas. É pena. Gostaria que soubesses

183 tudo, que visses como a minha vida já foi feia e

184 escura e como lutei e sofri para encontrar a

185 tranquilidade, a paz de Deus.

186 Adeus. Sempre aborreci as cartas de

187 romance que terminam de modo patético. Mas

188 permite que eu escreva

189 Tua para a eternidade

190 Olívia.”

Texto adaptado de: VERÍSSIMO, Érico. Olhai os lírios do campo. Rio de Janeiro: Editora Globo, 53ª ed, 1978. p. 152 a 156.

Analise as afirmações seguintes e depois assinale a alternativa correta quanto aos termos essenciais e integrantes da oração.

I - Em “Nunca encontrei um ateu sereno.” (linhas 69 e 70), o sujeito “eu” está oculto, e o trecho em destaque é o complemento objeto direto do verbo encontrar.

II - Em “Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro contemplativo.” (linhas 135 e 136), o trecho em destaque é complemento objeto indireto do verbo ser.

III - Em “Precisamos, portanto, de criaturas de boa vontade.” (linhas 148 e 149), o sujeito “nós” está oculto, e o trecho em destaque é o complemento objeto indireto do verbo precisar.


A

Somente I e II estão corretas.


B

Somente I e III estão corretas.


C

Somente II e III estão corretas.


D

I, II e III estão corretas.


E

I, II e III estão incorretas.