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De acordo com os estudos de regência verbal e com o padrão...

Texto para responder às questões de 01 a 15.

O comprador de aventuras

Meu primeiro fascínio por uma vitrina de livros foi com o de uma livraria que ficava bem no caminho entre o ponto final do meu bonde e o colégio. Não me lembro exatamente do dia em que aquela promessa de emoções apareceu ante meus olhos; lembro-me dos dias, dos anos que passei por lá, e do demorado namoro com cada livro.

Eu tinha 11 anos e o que me fascinava era a vitrina dos romances de aventuras. Todos os livros do Tarzan, em capas e títulos que me deixavam paralisado de indecisão: se tivesse dinheiro para comprar, qual seria o primeiro? Todos tinham o nome do herói no título e, em seguida, sem vírgula, um complemento: o Filho da Selva, o Terrível, e o Império Perdido, o Magnífico, e o Leão Dourado, o Rei dos Macacos... Quando consegui afinal juntar dinheiro (cortando cinema, bala, picolé, enganando o condutor do bonde, vendendo jornais velhos, ferro velho, diminuindo algum troco das compras de mamãe), comprei o primeiro livro da minha vida: Tarzan o Filho da Selva. Depois, os outros da série, todos. Daí passei para os de espadachins, sempre da mesma vitrina: O Prisioneiro de Zenda, O Audacioso Maurício de Hentzau, insuperável na ilustração da capa; A Volta de Maurício de Hentzau . Esgotada a safra, acompanhei o príncipe Íbis, que tinha um triângulo como monóculo; e logo Robin Hood, e Ivanhoé (considerava-o, orgulhosamente, meu meio xará), e cavaleiros e cruzados. Quando passei para o Pimpinela Escarlate e para o ladrão de casaca Arsène Lupin, já começara a trabalhar, as compras eram mais constantes, podia até errar um pouco nas escolhas.

Foi nesse meio tempo, por volta dos 13 anos, que descobri o livreiro Amadeu. Quando o colégio em que eu estudava se mudou para a avenida Paraná, no meio do caminho havia um livreiro, havia um livreiro no meio do caminho. Maravilha: Amadeu vendia e comprava livros usados. [...]

Amadeu, brancão, magro, alto, tinha um jeito meio de lado na hora de botar preço nos livros que comprava de mim, quase um certo desprezo, e como que uma contrariedade ao botar preço naqueles que me vendia, como se os estivesse avaliando por baixo, quase irritado com aquele menino:

— Olha aí, As mulheres de bronze, dois volumes enormes, e em troca você dá o quê?

Pegava nos cinco volumes, revirava um por cima do outro como se fossem trastes, e dizia:

— Olha aí, isso aqui ninguém mais lê, ninguém mais lê Pimpinela Escarlate.

Eu sempre tinha de dar algum a mais.

[...]

Passamos alguns anos negociando aventuras. A relação era formal e essencial, perfeita, como acontece entre necessários.

[...]

Minhas leituras mudavam. Amadeu continuava naquele jeitão comprido de valorizar as coisas dele.

— Quanto está pedindo pelas Memórias do cárcere,Amadeu?

— Ah, a edição está esgotada, os quatro volumes estão muito valorizados.

Penso hoje: como foi que Amadeu viu minhas mudanças como leitor? No começo parecia desconcertado quando eu comecei a recusar os livros policiais que sempre levava. Ele acompanhava meus dedos percorrendo fileiras de volumes, tentava captar meus novos critérios. Pegava os volumes que eu tirava das prateleiras ou das pilhas amontoadas e colocava sobre o balcão, olhava os títulos, talvez tentasse lembrar que tipo de leitor os vendera. E eu lá, por volta dos 18 anos, vasculhando e pescando Madame Bovary, os tormentos de Dostoievski Caetés Fogo morto, A carne, O amante de Lady Chatterley ...

Sim, o menino dos livros de aventuras tinha virado outro tipo de freguês e Amadeu, perplexo, tentava decifrá-lo. Mas isso fica para outra crônica.

ÂNGELO, Ivan. O comprador de aventuras e outras crônicas. São Paulo: Ática, 2003.

De acordo com os estudos de regência verbal e com o padrão culto da língua, o verbo destacado em “A relação ERAformal e essencial, perfeita” é:


A

intransitivo.


B

transitivo direto.


C

transitivo indireto.


D

de ligação.


E

transitivo direto e indireto.