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TEXTO
VELHA MESA
01 É uma velha mesa esta sobre a qual bato hoje a minha crônica. Pouco mais de um metro por uns quarenta centímetros de
02 largura. Móvel digno, com duas gavetas laterais, um verniz escuro cobria em outros tempos seu jacarandá. Às vezes me
03 dá vontade de parar de escrever, descansar minha cabeça no seu duro regaço e ficar lembrando a infância longínqua.
04 É uma velha querida mesa. Foi lixada para parecer mais nova, mas mostra ainda por toda parte as rugas que lhe causaram
05 a minha inquietação juvenil. O canivete entalhou fundo em sua carne fibrosa e ainda é possível distinguir nomes de
06 antigas amadas, quase esvanecidos. Lembro de que aqui à direita ficava o teu nome pequeno e louro, ó minha namorada
07 de oito anos. Na ponta esquerda, lá onde existe um nódulo escuro, havia uma cruz assim:
08 A
09 AMOR
10 O
11 R
12 - como a prenunciar um eterno suplício. A palavra Poesia gravada em caracteres largos, não mais se vê, mas o pequeno
13 violão desenhado a gilete, com uma clave de sol ao lado, resistiu ao carpinteiro.
14 Foi esta a única verdadeira mesa de trabalho que jamais tive. Na gaveta da direita guardava os versos de meu pai, minha
15 primeira e maior influência. Meus cadernos de estudo, empilhava-os à esquerda - ah, cadernos meus de geografia com
16 mapas tão cuidadosamente copiados! e do outro lado alinhava o grande caderno preto da Prefeitura, onde passava a limpo
17 meus primeiros versos.
18 Nessa mesa passou horas infindáveis de amor e poesia um menino com o meu rosto, labutando no verso uma forma ainda
19 hoje não alcançada. E foi nela também que, uma madrugada, a suar sangue, um poetinha de 18 anos desencantou de uma
20 página em branco o seu primeiro poema original - emoção tão grande como talvez nunca nenhuma.
21 (...)
22 Doce rever-te, velha mesa, depois de tanto, tanto tempo. Como a ti, andaram me polindo. Há também em mim nomes e
23 símbolos quase indistinguíveis sob a lixa do tempo. Mas não és tu a mesa da infância e da juventude - aquela sobre que
24 gotejaram, no pungente labor do verso e na angústia do amor sozinho, as primeiras lágrimas de um homem que nada sabia
25 e nada sabe senão amar a mulher?
(Vinicius de Moraes. "Para viver um grande amor". Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1962, p.173-175)
Indique a alternativa correta, em relação à classificação das orações destacadas no período: “Foi lixada para parecer mais nova, mas mostra ainda por toda parte as rugas que lhe causaram a minha inquietação juvenil.” (l. 4-5)
Coordenada assindética conclusiva e subordinada substantiva.
Subordinada substantiva e coordenada sindética aditiva.
Coordenada sindética adversativa e subordinada adjetiva.
Subordinada adjetiva e coordenada assindética.