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Leia o texto para responder às questões de números 01 a 13.
O boquirroto
Leandro Karnal
Muitas crianças falam o que não devem, curiosamente, porque dizem a verdade. Crianças e bêbados, já foi escrito, possuem estranho compromisso com o verídico.
Há muitos anos, uma amiga me disse que acabava de retornar “da fazenda” do pai. A filha que nos escutava (tinha algo como 10 anos) quase gritou: “Fazenda, mãe? Aquilo não é nem sítio!”. Menina inconveniente, desagradável, pouco educada e, como descobri depois, mais exata na descrição da propriedade rural. Era mais uma casinha cercada de árvores singelas do que um latifúndio. Outro conhecido me descreveu que o filho pequeno anunciava, em voz alta: o “tio chato” tinha chegado. Não sabia ainda o sincero garoto que os insultos ácidos só podem ocorrer na ausência do parente.
Em uma festa de encerramento do ano letivo, que nós professores temos em dezembro, um diretor exaltava todo o esforço da sua gestão. Um colega, apegado a caipirinhas, ouvia a autoridade e, tomado de boa pinga, dizia, ruidosamente: “Tudo papo furado!”. Claro, o autor da pantomima não nos fez companhia no ano subsequente. Sim, como na criança que reduzia a fazenda ao seu tamanho matemático, o professor etílico tinha razão. Era “conversa mole” ou “diálogo para boi dormir”. Porém, as mentiras eram emitidas pelo ser no topo da pirâmide alimentar. A sinceridade deve sempre avaliar o tamanho do poder de reação do mentiroso que denunciamos. Chamamos isso de prudência, boa educação ou, no extremo, zelo pelo meu emprego.
A pessoa que abre a boca de forma inconveniente, trazendo à luz inconsistências, pode ser um ... boquirroto.
Seria possível a vida social ou um simples jantar entre amigos se não fizéssemos concessões à conveniência? Uma epidemia de “boquirrotice” seria melhor ou pior do que coronavírus? Que casamento sobreviveria a uma torrente contínua de sinceridade?
Aprendi muito cedo que a liberdade de expressão, quando anunciada, é um risco... “Aqui nesta escola você pode dizer o que pensa”. “A sinceridade faz parte da nossa cultura empresarial”. “Somos íntimos, meu amigo, você pode ser sincero!”. Aprendi que o cuidado deve ser redobrado diante do convite à sinceridade... A sinceridade é uma virtude que deve ser pesada e ponderada muitas vezes diante dos seguintes obstáculos: a) o objeto da sinceridade é filho da pessoa que demanda a verdade; b) quem pede para dizer tudo possui poder acima do meu, na hierarquia do estabelecimento.
Na infância, diante de uma nova pomada, minha mãe tinha um procedimento intuitivo com algum respaldo científico. Ela passava um pouco em uma área pequena. Depois, vendo que não havia reação, colocava as quantidades generosas que eram demandadas. Talvez seja um bom guia diante do pedido de ser sincero total: vá revelando aos poucos a sinceridade e avaliando o efeito.
(O Estado de S. Paulo, 19.06.2022. Adaptado)
Considere as passagens do texto:
– Crianças e bêbados, já foi escrito, possuem estranho compromisso com o verídico. (1o parágrafo)
– Não sabia ainda o sincero garoto que os insultos ácidos só podem ocorrer na ausência do parente. (2o parágrafo)
– A sinceridade é uma virtude que deve ser pesada e ponderada muitas vezes... (6o parágrafo)
Os termos destacados significam, no contexto em que se inserem, correta e respectivamente:
genuíno; amargosos; compacta.
realista; ásperos; encorpada.
ilícito; cruéis; laboriosa.
inusitado; impiedosos; trabalhosa.
autêntico; ofensivos; analisada.