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O texto 3A4-I ilustra a poesia da terceira fase do...

Texto 3A4-I


Rios sem discurso


Quando um rio corta, corta-se de vez

o discurso-rio de água que ele fazia;

cortado, a água se quebra em pedaços,

em poços de água, em água paralítica.

Em situação de poço, a água equivale

a uma palavra em situação dicionária:

isolada, estanque no poço dela mesma,

e porque assim estanque, estancada;

e mais: porque assim estancada, muda,

e muda porque com nenhuma comunica,

porque cortou-se a sintaxe desse rio,

o fio de água por que ele discorria.


O curso de um rio, seu discurso-rio,

chega raramente a se reatar de vez;

um rio precisa de muito fio de água

para refazer o fio antigo que o fez.

Salvo a grandiloquência de uma cheia

lhe impondo interina outra linguagem,

um rio precisa de muita água em fios

para que todos os poços se enfrasem:

se reatando, de um para outro poço,

em frases curtas, então frase e frase,

até a sentença-rio do discurso único

em que se tem voz a seca ele combate.



João Cabral de Melo Neto. A educação pela pedra.

In: Obra completa: volume único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 350-1.

O texto 3A4-I ilustra a poesia da terceira fase do Modernismo brasileiro ou a chamada “geração de 45”. Considerando a leitura do poema e aspectos da obra do autor, assinale a opção correta.


A

O poema Rios sem discurso ilustra o lirismo de temática não intimista, mas participante das questões do tempo, resultado da integração entre o emocional e o reflexivo em uma linguagem poética com maior rigor formal, se comparada à linguagem dos primeiros modernistas.


B

O requinte formal dos versos de João Cabral está presente na regularidade métrica dos versos, que marca, ao longo dos versos do poema, um ritmo único e uniforme, casando o assunto do curso do rio ao ritmo, ambos inalteráveis.


C

A poesia de João Cabral sempre foi dividida em duas direções opostas e excludentes: uma primeira linha, marcada pelo cuidado formal, cuja tendência se volta para a metalinguagem, abrangendo uma temática de investigação do próprio fazer poético; e outra, desvinculada de preocupações estéticas, chamada de participante, que tem o Nordeste como sua temática principal.


D

Avesso às liberdades da poesia modernista, principalmente a poesia da fase heroica do Modernismo brasileiro, o poeta João Cabral resgatou características da estética parnasiana do século XIX, como o cuidado estético, o abandono dos exageros sentimentais, a objetividade e a visão crítica da realidade do seu tempo.


E

O poeta João Cabral absorveu as ideias renovadoras do Modernismo e trouxe para a sua obra influências óbvias do prosaísmo, da ironia e da liberdade dos versos dos seus antecessores, especialmente de Mário e Oswald de Andrade, colaborando para a evolução da poesia brasileira no século XX.