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Texto 3A4-II
Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. [...]
Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram as pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, por que se perderá também? Por que não dará fruto? Por que não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Por que não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo.
Padre Antonio Vieira. Sermão da sexagésima. In: Sermões escolhidos. v.2, São Paulo: Edameris, 1965. Internet: <www.dominiopublico.gov.br> (com adaptações).
No Sermão da sexagésima, o padre Vieira discorre a respeito da pouca eficácia das pregações religiosas sobre os fiéis em sua época. Considerando o texto 3A4-II e os aspectos da obra do padre Vieira, assinale a opção correta.
No primeiro parágrafo do fragmento, o autor metaforiza o pregador religioso como o “semeador evangélico” e a ele dirige uma sequência de interpelações a respeito de sua atuação; no entanto, fica claro, no contexto, que Vieira não espera respostas desse interlocutor.
Por meio de analogias entre os ciclos da natureza e as fases da vida humana, Vieira constrói argumentos para defender a ideia de que um religioso só é produtivo quando envelhece.
No jogo de analogias desenvolvido no fragmento, depreende-se que, assim como o bom resultado dos esforços do semeador é a colheita dos frutos da plantação, o bom resultado dos esforços do pregador religioso é a conversão dos fiéis por meio do sermão.
As repetições são, no texto, apenas um recurso retórico de ornamento das ideias, sem função efetiva na intenção de persuasão do leitor ou do ouvinte, intenção essa que conduz um sermão.
Da analogia “Por que não terão também os anos o que tem o ano?”, depreende-se que o autor emprega “anos” para a época representada no sermão e “ano” para um período com mudanças de estações climáticas; sendo assim, dá à palavra “Outono”, estação climática de um ano, a representação metafórica da época da vida embelezada pelas flores, símbolos da beleza e da juventude na vida humana.