Instrução: As questões de números 01 a 15 referem-se ao texto abaixo.
Cigarreira
- Ainda existe cigarro de chocolate? Quando eu era criança, não lembro mais em que século,
- compravam-se cigarros iguais aos de verdade, em ma___os, com chocolate dentro em vez de fumo.
- Eles também serviam para a gente brincar de adulto. Antes de comê-los, "fumávamos" os cigarros,
- gesticulando com eles como gente grande, dizendo coisas pseudoimportantes e tragando e expelindo
- fumaça imaginária. Nada era mais invejável nos adultos do que a liberdade para fumar e sonhávamos
- com o dia em que poderíamos assumir todas as poses de fumantes, mas fumando de verdade.
- Tinha um ritual de fumantes que me fa___inava. O homem tirava uma cigarreira – lembra da
- cigarreira? – do bolso de dentro do paletó, abria a cigarreira, escolhia um dos cigarros enfileirados,
- fechava a cigarreira com um sofisticado clic, depois batia com a ponta do cigarro no tampo da
- cigarreira, antes de guardá-la, colocar a ponta compactada do cigarro nos lábios e buscar o isqueiro
- em outro bolso do paletó. No dia em que eu pudesse fazer aquele pequeno teatro com naturalidade,
- eu seria um homem e, mais do que isso, um homem auto__uficiente e elegante, um homem de dar
- inveja.
- Outro gesto muito adulto era, segurando o cigarro entre o dedo indicador e o médio, usar o anular
- e o polegar para catar um fragmento de fumo na língua. Este eu imitava depois de cada tragada nos
- meus cigarros de chocolate.
- Um dia, decidi que não ia esperar crescer para ficar adulto. Roubei um cigarro da minha mãe,
- peguei fósforos e fui para o fundo do quintal. Bati com a ponta do cigarro na caixa de fósforos. Acendi
- o cigarro. Traguei. Me sentia um ator de cinema (naquele tempo se fumava muito nos filmes), um
- Tyrone Power depois de acender o da moça, um Humphrey Bogart depois da briga. Mas a pose não
- durou muito. Foi interrompida por um acesso de tosse. Era horrível, encher a boca de fumaça daquele
- jeito. Nunca mais botei um cigarro na boca. Nem de chocolate.
- Mas sei não. Às vezes, penso que faltou uma cigarreira na minha vida.
Luis Fernando Verissimo – Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/luis-fernando-verissimo/noticia/2017/06/cigarreira-9811333.html.