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A duração do tempo
Por Adriana Antunes
01 O tempo passa, às vezes nos damos conta, outras não. Independente de nós, ele passa. Já
02 é quase fim de ano, de novo. Aprender a duração do tempo exige que possamos senti-lo fluindo
03 por nós. Mas quase nunca sentimos. Afinal, temos tantas outras coisas importantes para fazer,
04 pensar, viver, que sentir o tempo nos atravessar não faz parte de nossas preocupações. Mais ou
05 menos. Ser atravessado pelo tempo é envelhecer, é ver o corpo murchar, cair, se modificar.
06 Nesses momentos, sentimos o tempo ancorado em nosso corpo, porque sentimos medo. Medo
07 de morrer. Medo de descobrir que nossa ampulheta do tempo, independente de nosso desejo,
08 jamais deixou de escoar a areia dos dias.
09 Isso que te rodeia desde sempre continua ali. As mesmas pessoas, os mesmos lugares, os
10 mesmos sentimentos. Aprendemos a nos esconder um pouco, é verdade, mas sempre ___ aquele
11 amigo que sabe quando tentamos burlar alguma dor. Somos os mesmos, só que mais velhos.
12 Nossos pés tocam o mesmo chão. Circulamos pelos mesmos caminhos há anos. Dessa rota,
13 pouco mudou, talvez a pai...agem. Meu pai costumava dizer, quando passava por algum lugar
14 do tempo da juventude, “aqui era tudo árvore”. Eu achava uma chatice essa conversa. Por onde
15 olhava via progresso e achava que rua asfaltada, parada de ônibus, posto de gasolina e farmácia
16 perto de casa era coisa de cidade. E cidade era sinônimo de progresso, diferente da colônia.
17 Dias atrás trope...ei e caí. A proximidade do corpo com o chão me fez lembrar do tempo de
18 criança, quando a cabeça não ficava tão distante dos pés e as preocupações eram entender como
19 as formigas conseguiam andar em fila indiana, por exemplo.
20 Hoje me pego dizendo a mesma coisa que meu velho. O que de fato compreendo é que o
21 corpo que carrego é o único que tem atravessado a vida junto de mim. Meu corpo, assim como
22 o seu, tem sido território de acontecimentos, alguns de que temos lembranças, enquanto outros
23 foram esquecidos. O real é que estamos no mundo do agora e às vezes esse mundo é uma
24 mistura de beleza e dor. Um dia não saberemos de mais nada, nem se havia ou não árvores por
25 aqui. A duração do tempo é o tempo da vida em nós.
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br – texto adaptado especialmente para esta prova).
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