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Em “É secular – desenvolvida como política de Estado ainda...

Texto para os itens 1 a 20


O racismo é um fantasma da escravidão que ainda assombra o povo brasileiro


O racismo ainda é algo muito difuso em nosso país, sobretudo entre as classes dominantes. Alguém por aí irá dizer que

já se passaram 134 anos da abolição da escravatura no Brasil e que tudo o que estou falando não passa de "mimimi", mas a

verdade verdadeira dos fatos nos leva a crer que a questão é muito mais séria do que imaginamos.

Eu sou de opinião que, enquanto os meios de produção, os grandes conglomerados comerciais, os meios de comunicação,

5 como os jornais e a televisão, os centros de formação profissional, sobretudo tecnológicos, as universidades – sejam públicas ou

privadas –, o comando do país, seja pelo Legislativo, seja pelo Executivo, estiverem nas mãos apenas de pessoas brancas, como

ocorre hoje, jamais teremos uma solução plausível sobre a questão racial entre nós.

A política demonstra enormemente tudo o que estou dizendo. O horário eleitoral, as plataformas dos partidos, a maciça

bancada de deputados federais e estaduais, eleita em cada legislatura – incluindo as câmaras de vereadores –, tudo isso nos dá

10 uma excelente ideia do país que habitamos.

Dois livros me trouxeram essa reflexão, e certa inquietação, assim que eu terminei de lê-los. Falo de "Pacto da

Branquitude", da psicóloga e ativista Cida Bento, colunista desta Folha, e de "A Sociedade Desigual – Racismo e Branquitude na

Formação do Brasil", do economista Mário Theodoro.

Esses dois livros deveriam servir de manuais de aprendizado do bom viver em comunidade, sobretudo no trato com

15 pessoas negras – ou seja, pretas e pardas, de acordo com as normas do IBGE.

A branquitude é um projeto de controle social, mas no sentido de demarcar acessos e barreiras para determinados grupos.

Isso não acontece de agora. É secular – desenvolvida como política de Estado ainda no Império. Desconstrói tecnologias, religião,

cultura e saberes da população preta, sobretudo a escravizada, tendo como filosofia o eugenismo e a sua coisificação desse ser

antes visto como mercadoria.

20 O livro de Cida Bento – eleita em 2015, pela revista The Economist, do Reino Unido, uma das 50 personalidades mais

influentes do mundo no campo da diversidade – nos remete a pensar a branquitude como uma prática que silencia e apaga, ao

mesmo tempo em que demarca território, com certa sutileza e malícia. Ela diz, com muito acerto: "É evidente que os brancos não

promovem reuniões secretas às cinco da manhã para definir como vão manter seus privilégios e excluir os negros. Mas é como se

assim fosse."

25 É intrigante pensar o quanto a prática, no nosso dia a dia, diz respeito às ações tão presentes nas agressões e ofensas

dos corpos negros – toda vez em que abrimos o jornal ou assistimos ao noticiário da televisão.

Desde os tempos imemoriais, do Império à Proclamação da República, corpos negros servem de referência a confirmar a

supremacia branca, sobretudo dentro da prática do poder. Como bem referido por Cida Bento, Luiz Gama, grande abolicionista,

chegou a chamar esses dominadores de "insaciáveis parasitas do trabalho africano". Para o baiano, o tributo que os brancos

30 deviam aos negros, durante três séculos de exploração de sua mão de obra, seria equivalente a R$ 1 trilhão, se calculados nos

dias de hoje.

Mário Theodoro vai pelo mesmo caminho. O seu "A Sociedade Desigual" mapeia o cenário aterrador que "destaca a etapa

do crescimento econômico dos anos 1930-1970", o qual consolida "uma classe média, majoritariamente, branca".

Como base de construção do país, o racismo segue praticamente desafiador, perpetuando desigualdades e "impedindo

35 mudanças estruturais", enquanto a sociedade brasileira, em face do racismo, se mantém "violenta, autoritária, elitista e medíocre".

Para o autor, a desigualdade se relaciona bem, desde o passado, com espaços como quilombos, favelas, alagados,

mocambos e, hoje, com comunidades, periferias e palafitas.

Enquanto não for assertivo o tratamento sobre os males do racismo no Brasil, não haverá avanço, pois as crenças

persistem em encarar o negro brasileiro como cidadão de segunda classe, sem plenos direitos.

40 Encarar o racismo como uma ideologia pode ser um dos passos para o Brasil se refletir como racista e violento. É parte

da cura.

Os livros de Cida Bento e Mário Theodoro têm tudo para se tornar clássicos muito necessários pela profundidade com que

abordam uma temática fantasma da escravidão que ainda assombra a todos nós, brancos e negros.


(Tom Farias. Jornalista e escritor, é autor de “Carolina, uma Biografia” e do romance “'A Bolha”. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tom-farias/2022/09/o-racismo-e-umfantasma-da-escravidao-que-ainda-assombra-o-povo-brasileiro.shtml. 8.set.2022)


Com relação aos aspectos linguísticos do texto, julgue os itens a seguir:

Em “É secular – desenvolvida como política de Estado ainda no Império” (linha 17), a palavra “secular” não assume o significado de “laico”, “mundano”, como poderia se atribuir a essa palavra em outro contexto.


C

Certo


E

Errado