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TEXTO 2
A onça valentona e o raio poderoso
Povo Taulipang
Os velhos do povo Taulipang contam que, antigamente, lá no início dos tempos, (...) a onça era muito metida a besta. Gostava de aparecer e amedrontar todo mundo, todos os animais. Fazia isso para poder se alimentar, mas fazia também para convencer a todos que ela era a mais poderosa do lugar.
Um dia ela encontrou um moço muito formoso à beira de um rio. Ele estava preparando um bastão. Sua distração era tanta que nem percebeu a onça aproximar-se às suas costas.
Ela chegou, então, de supetão e lançou-se sobre o estranho. Embora ela quisesse devorá-lo, não o fez naquele momento, pois antes queria humilhar sua presa. Por isso a onça apenas passou por cima do moço que permaneceu impassível. Ele apenas levantou os olhos e a cumprimentou.
- Olá, meu cunhado - disse a onça - queria saber se você é tão forte quanto eu. Eu quebro tudo o que vejo na minha frente. Você quer ver?
Nem esperou a resposta de Raio, como se chamava o moço. Imediatamente subiu na árvore carimbé e a quebrou totalmente. Foi sobre a árvore paricá e a estraçalhou com sua força descomunal. Desceu ao chão e cavou com suas garras, destruindo tudo à sua frente.
- Viu como sou forte, meu cunhado? Sou forçuda. Nada pode me deter. Agora eu quero ver sua força.
Raio permaneceu imóvel onde estava. Apenas comentou:
- Não sou forte como você, cunhada. Não tenho a força.
Não convencida, a onça mostrou mais uma vez sua força soltando fortes urros que foram ouvidos por toda a terra. Subiu em outras árvores e as destruiu sem dó nem piedade. Quando acabou sua demonstração e em prova de sua coragem, sentou-se de costas para Raio. Ele levantou-se de seu lugar e passou a agitar seu bastão produzindo faíscas, trovões, trovoadas, coriscos e toda sorte de barulho. Atordoada, a onça despencou no chão. Raio a pegou pelas pernas e a atirou bem longe dali.
Não sabendo o que pensar, a onça começou a fugir tentando encontrar um abrigo para se esconder. No entanto, para onde quer que corresse, Raio ia até ela e a descobria: ela correu para esconder-se nos rochedos, Raio foi lá e partiu os rochedos ao meio; ela subia nas árvores, Raio mandava seus raios sobre elas e as queimava inteiras obrigando a onça a procurar novos lugares. Ela enfiou-se no buraco do tatu gigante, Raio abriu a terra com seus raios poderosos e a fez fugir.
Eram tantos os poderes daquele jovem que apareceram chuvas, ventos, coriscos e deixaram tudo muito frio. Tão frio que a onça não podia mais correr para lugar nenhum.
Quando Raio viu a onça toda encolhida e medrosa, deitada sobre o próprio rabo, encaminhou-se para ela e ergueu as mãos como se fosse mandar um raio direto no coração do bichano. Mas não foi o que aconteceu. Na verdade, Raio parou diante do bicho todo acuado.
- Você viu, minha cunhada? Eu tenho a força muito maior do que a sua e nada pode me parar. E melhor que você não queira se achar toda poderosa antes de conhecer seu adversário. Agora eu vou embora, mas você sempre vai lembrar de mim.
Já toda envergonhada e cabisbaixa, a onça foi para sua casa.
Dizem os velhos desse povo, que é por isso que, até hoje, a onça tem tanto medo de trovoada. E que dentro dela mora a lembrança da existência do poderoso Raio.
(MUNDURUKU, Daniel. Contos indígenas brasileiros. 2. ed. São Paulo, Global, 2005)
A respeito do uso do discurso indireto em “A onça valentona e o raio poderoso”, pode-se dizer que:
é um recurso estilístico introduzido pelo uso do travessão para indicar as falas da protagonista e do antagonista
evidencia a perspectiva do narrador-personagem, introduzindo sua opinião a respeito dos fatos relatados
reforça o caráter cíclico e ancestral dos mitos, uma vez que ocorre no primeiro e no último parágrafos, apresentando a fala dos antigos do povo
ocorre de maneira recorrente ao longo do texto, comprovando serem fatos históricos as ações narradas