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Leia o texto para responder às questões de números 10 a 14.
De volta a São Paulo, retomei meus negócios, que agora iam muito bem. Quanto a Tita, passava o dia todo em casa. Encarregava-se das tarefas domésticas – não queríamos empregadas bisbilhotando – mas mesmo assim tinha muito tempo livre. Ficava olhando TV, sentada numa poltrona, as botas sobre uma banqueta, uma caixa de bombons ao lado (com o que já começava a engordar). Dormia mal; à noite ficava andando de um lado para outro, sem roupa, só com as botas. Eu não gostava de ver aquilo, as patas, a enorme cicatriz da operação. Que é, Guedali? – dizia, zombaria e amargura na voz – já esqueceste que fomos centauros1? Não faz muito, a gente andava galopando.
Sentava-se, suspirava: ai, Guedali, que saudade da estância. Pelo menos lá a gente tinha o campo para galopar e os tapetes da Dona Cotinha para se distrair.
Contratei-lhe uma professora. Mal sabia ler e escrever, eu queria que se instruísse um pouco; mais tarde, quem sabe, poderíamos os dois cursar a universidade. Por outro lado, eu era obrigado a recusar convites para coquetéis e jantares porque Tita não tinha condições de conversar com ninguém: a rigor, era uma grossa do campo. Grossa, mas inteligente; fez progressos notáveis nos estudos. A professora, uma senhora discreta, silenciosa, mostrava-se surpresa: sua esposa é muito capaz, Sr. Guedali.
Começamos a frequentar teatros e boates, agora que tínhamos amigos: jovens empresários e suas esposas, na maioria judeus. Tal como eu pensara, nos aceitavam sem dificuldade. Estranhavam que nunca fôssemos à praia nem à piscina, que Tita andasse sempre de calças compridas. Mas em nosso círculo havia um engenheiro argentino que escrevia estranhos poemas, e um executivo carioca que vivia com duas mulheres – não éramos, de forma alguma, os mais esquisitos.
Mas Tita não se sentia feliz, eu notava. Quem sabe consultas um psicólogo, eu sugeria. Irritava-se: psicólogo! Que psicólogo vai entender o nosso caso? Não amola, Guedali! Eu me calava, voltava para os jornais.
(Moacyr Scliar. O centauro no jardim. Nova Fronteira, 1980. Adaptado)
1 centauro: cavaleiro hábil e incansável.
No trecho “Grossa, mas inteligente; fez progressos notáveis nos estudos”, o vocábulo destacado tem como antônimo no contexto em que se encontra:
vergonhosos.
respeitáveis.
indescritíveis.
admiráveis.
insignificantes.