Que mistério tem Clarice?
- Olhos oblíquos, sugerindo distância. Rosto anguloso, maçãs salientes: um belo rosto eslavo. É Clarice Lispector,
- num retrato assinado por De Chirico. Não há fragilidade em seu rosto: há força, profundidade. Uma certa
- arrogância de quem domina, mas também serenidade e solidez. Um rosto altivo.
- ‒ Sou uma mulher simples. Não tenho sofisticação. Parece que me mitificaram. Eu não quero ser
- particular.
- No entanto, poucas pessoas foram tão particulares quanto ela. “Era uma mulher de grande
- liberdade. Uma mulher que viveu uma grande solidão. A solidão era a sua maneira de ser livre”, diz Olga
- Borelli, sua grande amiga. “Clarice tinha algumas coisas diferentes, que ela provocava, porque não aguentava a
- rotina. Acordava às três ou quatro horas da manhã, porque dormia cedo. Ia para cozinha, tomava café. Ia para
- sala, ficava fumando, pensando, com Ulisses, seu cachorrinho. Ouvia também a Rádio Relógio - uma emissora
- que só dá notícias e o tempo. A maior parte do tempo ela ficava quieta, pensando fumando. Ela se
- desvencilhava dos fatos o mais depressa que podia:
- ‒ Procuro viver rapidamente os fatos, porque a meditação profunda me espera!”
CAMPEDELLI, S. Y.; ABDALA JR., B. Literatura comentada – Clarice Lispector. 2. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 14.