- Ninguém sabe, exatamente, quando uma legião de brasileiros descobriu que já não era mais
- possível ter alguma coisa. Passaram a "possuir". Também deixaram de fazer. Querem "realizar".
- Para essa gente, oferecer, dar, emprestar, nenhum desses atos generosos sobreviveu à mania
- contemporânea de "disponibilizar". A língua encheu-se de calos, pela dificuldade de falar palavras
- simples e diretas, velhas companheiras — exiladas, agora, por uma inexplicável doença semântica.
- A moléstia, contagiosa, é agravada pelos anglicismos selvagens de gente desacostumada a ler
- em português, ou exposta em excesso a obras dolorosamente mal traduzidas. Sintomas comuns
- dessa necrose linguística são o uso de "escalar", não para montanhas, mas para expressar aumento
- ou amplificação de alguma coisa; a manifestação do desejo mórbido de "realizar" no lugar de
- "compreender"; a incapacidade paranoica de começar alguma ação sem o anúncio de que vai
- "estartar" a pobrezinha. (...)
- No país que guarda até hoje traços da Casa grande & senzala, falar enrolado sempre foi um
- modo de cobrar distinção. Não à toa, no Judiciário, onde até hoje existe elevador exclusivo para
- "eminentes magistrados", a linguagem tortuosa desfila de queixo erguido e peito estufado. É uma
- felicidade ver escal..., digo, ganhar impulso o esforço para simplificar a comunicação em lugares
- como esse.
- As estrepolias beletristas do juridiquês deixam no chinelo a fala empolada, que, hoje em dia,
- nunca "usa", só "utiliza", e não desempenha mais, porque prefere "performar". Tribunais gostam
- de ser chamados "egrégias cortes", e, ao lhe impor textos incompreensíveis, desculpam-se com
- "data vênia" e "elevada estima e consideração". Mas vão além: ao entrar no Supremo Tribunal,
- você descobre por exemplo, que chegou, segundo digníssimos advogados, ao "pretório excelso".
- Barbaridade. Isso não é nome de alguma entidade mitológica, como o tal do "mesmo", o ser
- misterioso citado nas placas de certos corredores, que devemos verificar se está parado, quem sabe
- nos espreitando, antes de pegar o elevador. Esse Pretório Excelso existe mesmo, pode perguntar
- nos tribunais. E, a depender do que anda fazendo, ele um dia pode botar as mãos em você.
SERGIO LEO. A linguagem performática dos possuídos realizadores. Revista do Correio. 20/10/2024. Disponível em:
https://www.correiobraziliense.com.br/revista-do-correio/2024/10/6964579-cronica-cidade-nossa-a-linguagem-
performatica-dos-possuidos-realizadores.html