Convicta, mas não inflexível
Por Tríssia Ordovás Sartori
- .... poucos dias terminei Cem Dias entre o Céu e Mar, livro que ganhei de um amigo querido
- e que já tinha contado aqui. Ele me deu depois de eu dizer que não gostava do Amyr Klink, na
- possibilidade de mudar minha percepção sobre o navegador. Demorei para me animar e decidir
- me dedicar ___ leitura. Surpreendentemente, foi bem prazerosa.
- Não tenho intimidade nenhuma com navegação, o mais perto que tinha chegado desse
- universo tinha sido em O Velho e o Mar e em Moby Dick — para não ficar só nas aventuras do
- capitão Jack Sparrow, lógico. Ainda assim, adorei as ................ sobre os perigos e desafios no
- oceano ___ bordo de um barquinho a remo, com comida desidratada e tanques de água potável.
- Descobri que uma almofadinha para sentar pode prevenir assaduras e que criar uma rotina
- é fundamental para não enlouquecer. Descobri que tubarões nunca podem parar de nadar
- porque não têm bexiga natatória — a estrutura que ajuda na flutuação —, o que os obriga a
- estar sempre em movimento. Deu até pena deles: o movimento é imprescindível na vida, mas
- é muito bom ter a oportunidade de parar, né?
- Para resumir a história: acabei o livro com lágrimas nos olhos. Achei a travessia,
- especialmente a interna, bem comovente. Assim que terminei, escrevi para o Chico, para
- agradecer a ele por ter decidido ampliar minha perspectiva. Fiquei feliz por ter me permitido
- mudar a impressão que tenho de Amyr, ainda que circunstancialmente.
- Fiquei pensando como isso é fundamental na vida: abrir espaço para o novo, permitir-se
- confrontar certezas absolutas e, às vezes, dar um passo para ..... Ser convicta, mas não
- inflexível. Quando essa condução é feita por alguém de quem a gente gosta, fica até mais
- factível — mesmo que demore um pouco.
- É até bonito ver um microuniverso de contenção absoluta, onde apenas o estritamente
- necessário aparece. Em um mundo de exageros e ostentações, o básico fica ainda mais
- interessante. Acho curiosíssima (e merecidíssima) a comoção em torno de Fernanda Torres a
- poucas semanas da cerimônia do Oscar. Não por conta do talento dela, mas do estilo low profile.
- Não faltam análises sobre o jeito Fernanda de ser. Muitas evocam o fato dela ser
- trabalhadora, focar no trabalho com seriedade, não ter afetação, levar uma vida aparentemente
- normal, ser discreta em relação ao próprio dia ___ dia... Isso não é muito surreal? Virou um
- modelo por ser normal, por viver como acredita, por não precisar se jogar confetes...
- Porque, se for para jogar confetes, que seja na Viviane Araújo. Ando magnetizada por ela,
- rainha das rainhas de bateria, que completa 30 anos de Sapucaí.
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/trissia-ordovas-sartori/noticia/2025/02/convicta-mas-nao-inflexivel-cm757iu1m00s2012bqb4556rc.html – texto adaptado especialmente para esta prova).