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Os degraus subindo sinuosos alcançavam uma graça firme tão leve que Virgínia perdia a sua percepção quase ao possuí-la e interrompia-se à sua frente vendo apenas madeira empoeirada e veludo encarnado, degrau, degrau, ângulos secos. Sem saber por quê, detinha-se no entanto, abanando os braços nus e finos; ela vivia à margem das coisas. A sala. A sala cheia de pontos neutros. O cheiro de casa vazia. Mas o lustre! Havia o lustre. A grande aranha escandecia. Olhava-o imóvel, inquieta, parecia pressentir uma vida terrível. Aquela existência de gelo. Uma vez! Uma vez a um relance – o lustre se espargia em crisântemos e alegria. Outra vez – enquanto ela corria atravessando a sala – ele era uma casta semente. O lustre. Saía pulando sem olhar para trás.
LISPECTOR, Clarice. O Lustre. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.
Considerando o texto apresentado e as inter-relações da literatura com outros sistemas culturais e semióticos, avalie as afirmações a seguir.
I. O recurso da linguagem utilizado pela autora apoia-se em elementos que a fazem criar imagens sugestivas e permitem ao leitor visualizar, no texto apresentado, a escada, a sala vazia e o próprio objeto “lustre”, descrito como uma beleza plástica, pictórica, captada através do jogo de luz, sombras, cores.
II. A relação cinema/literatura está presente no texto da escritora Clarice Lispector e fundamenta-se nos conceitos e nas técnicas de montagem que substituem a perspectiva da personagem pela perspectiva externa da câmera ou do diretor de cinema, permitindo um olhar global da cena.
III. A escritora Clarice Lispector escreve sequências de frases como uma montagem cinematográfica, em que a imagem e a percepção (da personagem e do leitor/espectador) se aliam, como mostra o texto apresentado em: “degrau, degrau, ângulos secos”; “ela vivia à margem das coisas”; “a sala cheia de pontos neutros”.
IV. O exercício da leitura do texto de Clarice Lispector é realizado a partir do vaguear dos olhos pelas cenas que se desenvolvem por meio da linguagem, para delas extrair uma interpretação entre mundo real e ficcional invocado na imaginação leitora, em uma forma própria de uso da estética cinematográfica.
É correto apenas o que se afirma em
I e II.
I e IV.
II e III.
I, III e IV.
II, III e IV.