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Se a queixa tem valor de linguagem que confirma aos...

Atenção: Considere o texto abaixo para responder às questões de números 7 a 10.


Todas as sociedades definem implicitamente uma legitimidade da dor que se antecipa a circunstâncias sociais, culturais ou físicas tidas como difíceis. Uma experiência acumulada do grupo leva seus membros a uma expectativa do sofrimento habitual imputável a esses fatos.

A intervenção cirúrgica ou dentária, as sequelas de ferimento etc. são precedidas pelo comentário experiente dos que já passaram pela mesma situação e se apressam em dar sua impressão ou seu conselho. O médico pode sugerir a intensidade da dor pela qual o paciente passará. Cada experiência, cada doença, cada lesão é associada a uma margem difusa de sofrimento. A sociedade indica simbolicamente os limites do lícito e, fazendo isso, esforça-se por dissuadir dos possíveis excessos. A expressão individual da dor penetra no cerne de formas ritualizadas, alimentando a expectativa de suas testemunhas.

Quando um sofrimento exibido parece desproporcional em relação à causa é ultrapassa o limite tradicional, desconfia-se de complacência ou de fingimento. A reputação do ator está então em jogo. Nos casos em que é obrigatório aquentar o sofrimento com firmeza, o homem oprimido pela dor e que não corresponde à expectativa dos outros através de sua propensão à queixa e às lágrimas, expõe-se à reprovação muda ou à exortação para que se comporte melhor. Essa discrepância em relação à discrição habitual provoca atitudes opostas aquelas desejadas pelo doente: a compaixão dá lugar ao constrangimento ou à incompreensão.

Inversamente, quando a ritualização da dor pede a dramatização, compreende-se mal quem interioriza seu sofrimento e não diz nada a ninguém. Se a queixa tem valor de linguagem que confirma aos próximos o benefício de sua presença à cabeceira do doente, sua discrição parece negar a compaixão demonstrada em seu favor. Impenetrável apesar da dor que se supõe estar sentindo, o doente parece afirmar a insignificância daqueles que se apinham ao seu lado. Sua aparente capacidade para assumir sozinho e em silêncio sua provação frustra a família, que não espera senão a queixa para prodigalizar consolo e apoio.

A dor tem ritos que não são transgredidos sem o risco de indispor ou de ofender as pessoas de boa vontade. Mesmo no horror do que está sentindo, o homem sofredor segue o caminho que as tradições lhe traçam.


(Adaptado de: LE BRETON, David. Antropologia da Dor. São Paulo: Fap-Unifesp, 2013, p. 110411)

Se a queixa tem valor de linguagem que confirma aos próximos o benefício de sua presença à cabeceira do doente, sua discrição parece negar a compaixão demonstrada em seu favor.


Uma redação alternativa para a frase acima, que mantêm a coerência e, em linhas gerais, seu sentido, encontra-se em:


A

Uma vez que se exima de queixar-se, o silêncio do doente passa a desempenhar o papel de linguagem que assevera O conforto a ele dispensado pela presença dos que lhe são próximos.


B

Caso o lamento seja válido como linguagem que assevere o bem proporcionado pelos que estão junto ao doente, seu comportamento será avesso à compaixão que lhe oferecem.


C

O doente, ao abster-se do lamento, que discursivamente valida O benefício proporcionado pelos que estão ao pé de seu leito, parece rejeitar a compaixão que lhe demonstram.


D

A queixa do doente, desde que passe a ter um valor discursivo, confirma seu apreço pelos familiares, caso contrário, volta-se contra suas demonstrações de compaixão.


E

O discernimento do doente, em termos discursivos, no momento de compaixão demonstrada em prol de sua situação, assevera o benefício do acolhimento das pessoas próximas.