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No segundo e terceiro parágrafos do texto (linha 6-19)...

Leia o texto a seguir para responder às questões de 8 a 12.

A unidade biológica e a diversidade das culturas

1 A leitura não é senão um exemplo das atividades culturais surpreendentemente diversas que a espécie

2 humana criou há uma dezena de milhares de anos. À primeira vista, um fosso parece separar as invenções culturais da

3 biologia do cérebro. É a razão pela qual a questão das aprendizagens como a leitura é raramente colocada em termos

4 biológicos. Raros são os pesquisadores em ciências sociais que consideram pertinentes ao seu domínio de estudos a

5 biologia do cérebro e a teoria da evolução.

6 A maior parte adere a um modelo implícito do cérebro que denominarei aqui o da plasticidade generalizada e

7 do relativismo cultural. De acordo com eles, o cérebro é um órgão tão flexível e maleável que ele não restringe em nada

8 a amplitude das atividades humanas. É uma ideia antiga, que encontramos nas obras dos filósofos empíricos britânicos

9 como John Locke, David Hume e George Berkeley: o cérebro do homem seria comparado a uma ardósia virgem, onde

10 se imprimiriam, através do filtro dos cinco sentidos, os dados do ambiente natural, mas também cultural.

11 Revisitada por numerosos teóricos do relativismo cultural no século XX, essa visão do homem recoloca em

12 questão a ideia mesma de uma natureza humana. A natureza humana não se imporia a nós enquanto espécie

13 biológica. Ela se construiria progressivamente, de modo maleável, por imersão numa dada cultura. Assim, as crianças

14 nascidas na cultura inuit, entre os índios mundurucus da Amazônia ou numa família judaica do Upper East Side de New

15 York, não partilhariam quase de pontos em comum. A percepção da cor, a apreciação da música ou o senso moral

16 seriam eminentemente variáveis de uma cultura a outra – só mesmo a capacidade de aprender seria característica de

17 nossa natureza humana. A questão das bases cerebrais dos objetos culturais tais como a leitura não seria, pois,

18 pertinente: liberado dos entraves da biologia, o cérebro humano, diferente do de outras espécies animais, seria capaz

19 de absorver toda forma de cultura, seja qual fosse sua variação.

20 O que pretendo mostrar aqui é a que ponto os dados recentes da imagem cerebral e da neuropsicologia

21 recusam esse modelo simplista das relações entre o cérebro e a cultura. Examinando a organização cerebral dos

22 circuitos de leitura, veremos a que ponto é falsa a imagem de um cérebro virgem, infinitamente maleável que se

23 contentaria em absorver os dados de seu ambiente cultural. Nosso cérebro é evidentemente capaz de aprendizagem,

24 sem o que não poderia incorporar as regras próprias da escrita latina, japonesa ou árabe. No entanto, essa

25 aprendizagem é limitada.

26 Em todos os indivíduos, em todas as culturas do mundo, a mesma região cerebral, com diferenças mínimas de

27 milímetros, intervém para decodificar as palavras escritas. Seja a

28 leitura em francês ou chinês, a aprendizagem da leitura percorre sempre um circuito idêntico.

29 Sobre a base desses dados, sou levado a propor outro modelo, que denomino “reciclagem neuronal”,

30 radicalmente oposto ao do relativismo cultural. De acordo com essa hipótese, a arquitetura de nosso cérebro é

31 estreitamente enquadrada por fortes limites genéticos. Contudo, os circuitos do córtex visual dos primatas possuem

32 certa margem de adaptação ao ambiente na medida em que a evolução os dotou de uma plasticidade e de regras de

33 aprendizagem. Os mesmos neurônios que reconhecem a forma dos rostos ou das mãos podem igualmente desviar

34 suas preferências a fim de responder a objetos artificiais, a formas fractais ou mesmo às letras. No curso da evolução

35 dos primatas, sem dúvida, era vantajoso não especificá-los de forma muito rígida, mas deixar-lhes a possibilidade de se

36 adaptar ao ambiente. Assim, nossos genes seguidamente não especificam senão um jogo de possibilidades, uma

37 arquitetura de “pré-representações”, para retomar o termo de Jean-Pierre Changeux. Formulo, então, a hipótese de que

38 as invenções culturais como a leitura se inserem nessa margem de plasticidade. Nosso cérebro se adapta ao ambiente

39 cultural, não absorvendo cegamente tudo o que lhe é apresentado em circuitos virgens hipotéticos, mas convertendo a

40 outro uso de predisposições cerebrais já presentes. Nosso cérebro não é uma tabula rasa onde se acumulam

41 construções culturais: é um órgão fortemente estruturado que faz o novo com o velho.

42 Para aprender novas competências, reciclamos nossos antigos circuitos cerebrais de primatas – na medida em

43 que tolerem um mínimo de mudança.

44 [...]

45 O paradoxo da leitura sublinha o fato indubitável de que nossos genes não evoluíram para nos permitir a aprender a ler. Não vejo senão uma só solução. Se o cérebro não teve tempo para evoluir sobre a pressão dos limites

46 da escrita, então, foi a escrita que evoluiu a fim de levar em conta os limites de nosso cérebro. O modelo da reciclagem

47 neuronal nos conduzirá assim a revisitar a história da escrita, desde os primeiros símbolos das culturas pré-históricas

48 até a invenção do alfabeto. Nós aí encontraremos traços de uma incessante manufatura evolutiva que adapta sem

49 descanso os objetos da escritura aos limites de nosso cérebro. Todas as escritas do mundo partilham numerosos traços

50 que refletem os limites de nossos circuitos visuais.

DEHAENE, Stanislas. Os neurônios da leitura: como a ciência explica a nossa capacidade de ler. Tradução Leonor Scliar-Cabral. Porto Alegre: Penso, 2012. p. 19-21 (Adaptado)

No segundo e terceiro parágrafos do texto (linha 6-19), ocorrem vários verbos no futuro do pretérito do modo indicativo. Essas ocorrências, no contexto em que aparecem, buscam


A

indicar polidez por parte do autor e evitar ofender aqueles que defendem as ideias questionadas no restante do texto.


B

enfatizar uma ação habitual ou uma faculdade do sujeito e impedir a ambiguidade linguística no contexto em que ocorrem.


C

demonstrar surpresa diante de concepções consideradas verdadeiras no passado mas que são obviamente incorretas.


D

exprimir a incerteza das ideias apresentadas, já que se referem a uma hipótese com a qual o autor do texto não concorda.


E

apresentar condições necessárias para realização de uma ação futura de caráter obrigatório, que independe da vontade do sujeito.