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Na oração “as crianças pulam de um vídeo para outro”...

TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 01 A 10.


Mais vida, menos tela


  1. Eu sei que é difícil, mas é preciso, urgentemente,
  2. fazer com que as nossas crianças tenham menos contato
  3. com as telas e mais contato com a vida real. Eu sei. Você
  4. chega cansado, às vezes frustrado, com as olheiras de
  5. quem sobrevive — e não vive. Mas, ainda assim, é
  6. preciso.
  7. As telas, essas janelas luminosas que piscam,
  8. vibram e engolem o tempo, também têm o seu valor.
  9. Claro que têm. Não se trata de demonizar o mundo digital
  10. — ele nos conecta, nos informa, nos liberta em muitos
  11. aspectos. Mas, ao mesmo tempo, ele também aprisiona.
  12. E o mais cruel? Faz isso em silêncio, com sorrisos, cores
  13. vivas e efeitos sonoros.
  14. O filósofo francês Jacques Ellul alertou que “a
  15. técnica é o conjunto de métodos racionalmente
  16. elaborados e que apresentam, em um dado estágio do
  17. desenvolvimento, a maior eficácia possível em todos os
  18. campos da atividade humana” (A Sociedade
  19. Tecnológica, p. 21). Ou seja: ela não pede licença — ela
  20. se impõe. E, quando tomamos como naturais os seus
  21. avanços, sem questionar o que estamos perdendo,
  22. viramos reféns bem-comportados de um sistema que
  23. apenas simula liberdade.
  24. Lembra quando a infância era feita de terra nas
  25. unhas, histórias contadas de improviso, cabanas feitas
  26. com lençóis velhos e cadeiras da sala? Quando um
  27. graveto era uma espada e uma poça d’água, um oceano?
  28. Não havia tutorial para brincar. A imaginação era o GPS,
  29. e a rua, o infinito.
  30. Hoje, nossas crianças mal sabem o que é entediar-
  31. se. E isso é perigoso. Porque é no tédio que nasce a
  32. criatividade. É no vazio que a alma cria forma. Contar
  33. histórias aos filhos — como faziam os nossos avós —
  34. não é um ato de entretenimento: é um ritual de
  35. transmissão de mundo. Branca de Neve, Os Três
  36. Porquinhos, João e o Pé de Feijão… não eram apenas
  37. contos; eram metáforas de vida, lições cruas disfarçadas
  38. em fábulas, pedagogia ancestral. Hoje, em vez da voz do
  39. pai ou da mãe narrando um conto à meia-luz, temos
  40. youtubers gritando em vídeos editados como se todos
  41. sofressem de déficit de atenção. O tempo da infância está
  42. sendo comprimido. Com um dedo, as crianças pulam de
  43. um vídeo para outro, de uma emoção à seguinte. Sem
  44. pausa. Sem elaboração. Sem digestão.
  45. Ellul também nos advertiu sobre isso: “A ciência
  46. revela tudo aquilo que o homem havia considerado
  47. sagrado. A técnica se apropria disso e o escraviza.” (A
  48. Sociedade Tecnológica, p. 142). O que era humano,
  49. afetivo, simbólico — foi mecanizado. A infância também
  50. corre esse risco.
  51. Claro, as telas são tentadoras. São babás eficientes,
  52. baratas e incansáveis. Mas o custo disso? É a
  53. terceirização da infância. Quando deixamos nossos filhos
  54. à mercê do YouTube, do TikTok ou dos joguinhos
  55. viciantes, não estamos apenas economizando energia.
  56. Estamos, sem perceber, ensinando a eles que o mundo
  57. real é entediante demais para merecer atenção. Estamos
  58. empurrando nossos filhos para o precipício da
  59. passividade.
  60. A infância não pode ser terceirizada. Ela precisa ser
  61. compartilhada. Não basta colocar comida no prato e uma
  62. escola no currículo. É preciso estar junto. Sentar no chão.
  63. Inventar vozes para os personagens. Jogar memória.
  64. Brincar de mímica. Ser bobo. Ser vulnerável. Ser pai e
  65. mãe de verdade — não apenas administradores de
  66. tarefas. Sei que você trabalha demais. Que o trânsito é
  67. um inferno. Que a vida cobra boletos e paciência em
  68. prestações mensais. Mas também sei que seu filho não
  69. precisa de um iPad novo. Ele precisa de você. Não de um
  70. “você” perfeito, mas de um “você” presente. E, se
  71. continuar assim — com a criança presa à tela por horas
  72. e mais horas, sem filtro, sem pausa, sem sentido —, bem,
  73. é bom já ir se acostumando com o olhar vidrado, a fala
  74. rápida, o tique nervoso.
  75. Porque, daqui a pouco, seu filho vai estar tão
  76. dependente da dopamina digital quanto um viciado em
  77. crack está da próxima pedra. E, acredite, é isso que o
  78. algoritmo quer: dependência.
  79. Sim, estou sendo duro. Mas a verdade raramente é
  80. delicada.
  81. E antes que você pense que este texto é apenas
  82. sobre crianças, deixo o espelho: isso vale para você
  83. também. O adulto que não larga o celular para jantar.
  84. O que se perde no feed e não vê o tempo passar. O
  85. que troca um pôr do sol real por uma foto de pôr do sol
  86. em Bali — com filtro. O que vive menos a vida do que
  87. documenta a tentativa de vivê-la.
  88. O sociólogo Zygmunt Bauman, ao falar da
  89. modernidade líquida, escreveu: “As relações humanas
  90. são agora como líquidos: fáceis de moldar, mas difíceis
  91. de manter em qualquer forma estável.” (Modernidade
  92. Líquida, p. 8). E o que é a internet senão a liquidez
  93. absoluta do afeto? A presença evaporada. O abraço
  94. substituído por emojis. Um dia, quando seu filho estiver
  95. grande, ele talvez não lembre do presente caro que você
  96. deu. Nem da série que assistiram lado a lado, sem trocar
  97. uma palavra. Mas ele vai se lembrar — e com uma
  98. dorzinha no peito — do dia em que você desligou o
  99. celular, se abaixou e virou um monstro da história que ele
  100. inventou. Vai lembrar da sua voz tremendo ao fazer a voz
  101. do lobo. Da risada que escapou quando o castelo de
  102. almofadas desabou.
  103. Você não precisa ser mágico. Só precisa estar.
  104. Estar ali, inteiro. Sem Wi-Fi. Sem filtro. Presente, feito o
  105. tempo que não volta mais.
  106. Porque, no fim, o que eterniza a infância não são as
  107. telas. São os toques. Os silêncios.
  108. E os olhos que dizem: “Eu estou aqui. E você vale
  109. todo o meu agora.”


Autor: Felipe Daroit (adaptado).

Na oração “as crianças pulam de um vídeo para outro”, sintaticamente, o tipo de sujeito é classificado como:


A

Sujeito oculto.


B

Sujeito simples.


C

Sujeito composto.


D

Sujeito indeterminado.