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Texto para as questões de 1 a 9.
1 Não há dúvida: viveu realmente, durante a segunda metade do século V a.C., um médico grego chamado
Hipócrates. Nascido na ilha de Cós, membro de uma ilustre família de médicos, produziu impressão profunda e
duradoura em seus contemporâneos; sua reputação profissional era a melhor possível. As gerações posteriores
4 consagraram-no como o “pai da medicina”, mas nem tudo o que a tradição clássica conservou tem fundamento
histórico.
A existência de Hipócrates coincidiu aproximadamente com a Guerra do Peloponeso e com a efervescência
7 cultural de Atenas. Na época de seu apogeu, ou pouco antes, circulavam entre médicos, discípulos e interessados
alguns textos de medicina que, hoje, sabemos serem de autoria desconhecida, mas que, ainda na Antiguidade,
foram atribuídos a Hipócrates. Esses textos podem ter formado o que hoje chamamos de “o núcleo mais antigo”
10 da coleção hipocrática. Se alguns deles eram, efetivamente, os textos escritos em dialeto jônico que conhecemos,
abordavam a saúde, a doença, a prática da medicina de forma inovadora.
Por volta de 500 a.C., os médicos já haviam começado a dissociar a medicina das práticas mágico-religiosas
13 dos séculos anteriores. Na época de Hipócrates, sem abandonar o conhecimento empírico herdado de seus
antecessores, trouxeram progressivamente à medicina especulações teóricas e procedimentos baseados na
observação rigorosa do doente e da doença, na busca incessante de explicações racionais para a doença e de
16 instrumentos eficazes para o tratamento do doente. Grande parte da técnica especulativa e argumentativa por
eles empregada, refletida na literatura médica que chegou até nós, fora aprendida dos filósofos pré-socráticos; em
contrapartida, muitos filósofos incorporaram conceitos de fisiologia e medicina aos seus sistemas filosóficos. No
19 final do século V a.C., porém, os médicos se empenhavam energicamente em desvincular a medicina da filosofia
e em reconhecê-la como uma “arte” autônoma.
É possível que um desses médicos pioneiros tenha sido Hipócrates de Cós. Suas opiniões eram, certamente,
22 inovadoras, e se sua competência se resumiu apenas à divulgação ou transmissão desses conceitos, não se sabe.
Ignoramos também se ele chegou a escrever realmente alguma coisa. Mas era tão grande a fama e tão alta sua
reputação que muitos textos médicos, revolucionários ou não, acabaram sendo-lhe atribuídos.
25 Com o passar dos séculos, a fama de Hipócrates tornou-se cada vez maior. Surgiram numerosas lendas a
seu respeito e muitos textos médicos, escritos com certeza muito depois de sua morte, continuaram sendo-lhe
sistematicamente atribuídos.
28 Segundo o verbete da Suda, Hipócrates morreu com 104 anos. O que provavelmente constitui um exagero
do autor: outras fontes falam de 85 a 90 anos. Mesmo se levarmos em consideração a idade mais baixa, 85 anos,
Hipócrates teria vivido mais tempo do que a maioria de seus contemporâneos. Vejamos o tempo de vida de alguns
31 gregos cujas datas de nascimento e morte não são tão controvertidas: Sócrates viveu 70 anos; Platão, 81;
Aristóteles, 62; Aristófanes, 61; Eurípedes, 79. A média é de, mais ou menos, 70 anos, o que situaria a morte de
Hipócrates na primeira ou segunda década do século IV a.C. Ultrapassar os 50 anos de idade não era muito comum
34 naquela época. Escavações arqueológicas em Metaponto, rica cidade grega do extremo sul da Península Itálica,
descobriram ossadas de 272 pessoas que ali viveram entre 600 e 250 a.C. O estudo dos esqueletos revelou que a
expectativa média de vida dos adultos era de 42 anos para os homens e de 39 para as mulheres; o esqueleto mais
37 antigo tinha pouco mais de 50 anos. Assim, acredita-se que Hipócrates, no momento de sua morte, tivesse entre
60 e 70 anos no máximo.
Quanto ao fato de Hipócrates ter escrito diversos tratados médicos, não é improvável que o tenha feito; mas
40 nenhum texto da coleção hipocrática pôde até hoje ser-lhe atribuído com algum grau de certeza.
O que se sabe, efetivamente, a respeito de Hipócrates? As informações confiáveis estão de tal forma
mescladas a lendas, relatos inverossímeis e falsificações evidentes, que se tornou praticamente impossível, em
43 nossos dias, conhecer com precisão os dados factuais que constituiriam sua biografia.
RIBEIRO JR., Wilson A. Hipócrates de Cós. In: CAIRUS, Henrique F.; RIBEIRO JR., Wilson A. (org.). Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2005, p. 11-24 (adaptado).
Assinale a alternativa em que o vocábulo “que” está empregado como pronome relativo, introduzindo uma oração adjetiva.
“que um desses médicos pioneiros” (linha 21).
“que muitos textos médicos” (linha 24).
“que a maioria de seus contemporâneos” (linha 30).
“que ali viveram” (linha 35).
“que a expectativa média de vida” (linhas 35-36).