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Texto para as questões de 1 a 9.
1 Tendo irrompido na capital de certo país uma
epidemia de moléstia terrível que matava milhares de
pessoas por dia, a junta do governo se viu obrigada a
4 fazer o serviço compulsório de coveiros e requisitar
palácios para hospitais. Um médico modesto, mas
sábio, passado o flagelo, saiu de sua modéstia e
7 escreveu num jornal ou numa revista de pouca
importância um artigo simples, claro, sem arrebiques
de péssima literatura pernóstica, sem fumaça de
10 ciência e de clínica, lembrando a conveniência de se
criarem mais hospitais públicos e situá-los em
diversas zonas da cidade, para sempre poderem eles
13 atender à população eficazmente, nas épocas
normais e anormais.
Pouca gente leu o artigo do honesto facultativo,
16 mas todos os seus colegas o fizeram, sem que,
entretanto, nada dissessem logo.
Passa-se um mês, quando já todos estavam
19esquecidos das palavras do bom esculápio sem
trombetas, bulha e matinada, apareceu no principal
jornal da cidade um artigo desmedido, escrito com o
22bolor de vocábulos antigos, recheado de citações e
exemplos de outras terras e termos híbridos do grego
e do hebraico, repetindo as sugestões do velho prático
25que lembrara a criação de hospitais semeados pela
capital do país.
Apesar do assunto ser o mesmo, sem
28discrepância alguma, o nome de quem aventou a
ideia pela primeira vez, cujo nome era Mendonça, não
foi citado.
31 Na câmara, um outro facultativo, que era
deputado muito famoso pela sua clínica nas altas
rodas da cidade, apresentou um projeto, calcado nas
34ideias do doutor Mendonça, mas não o citou, fazendo
isso várias vezes com o doutor plagiário daquele, que
se chamava Cavalcante.
37 Os jornais, pelos seus cronistas, gabaram muito
o projeto e, nas suas crônicas e tópicos, não se
amedrontavam em repetir os nomes do doutor
40 Cavalcante e do deputado doutor Azevedo.
Toda a gente ficou crente de que a ideia era do
doutor Cavalcante, e essa convicção ainda se tornou
43 mais forte quando apareceu uma crônica do doutor
Juventa num popular jornal noturno, atribuindo toda
a glória da iniciativa aos seus dois colegas, Cavalcante
46 e Azevedo.
Esse doutor Juventa era tido em grande conta,
não por ser verdadeiramente grande em qualquer
49 coisa, apesar de ser médico, advogado, poeta, literato,
político, estrategista, etc.; era tido em grande conta
por ser um homem feliz — menos com os seus
52 doentes, diziam os maldosos.
Nada sabemos disso e o certo, porém, é que o
artigo encerrou para sempre o nome do simplório
55 doutor Mendonça.
Assim são as coisas naquele país...
Lima Barreto. O pai da ideia. In: Vida urbana. São Paulo: Brasiliense, 1956 (adaptado).
O segundo parágrafo do texto contém somente um período, composto de três orações. Acerca das relações de coesão e coerência estabelecidas entre elas, assinale a alternativa correta.
As duas últimas orações estão estruturadas em uma relação de adição, pois ambas adicionam novas informações à ideia principal do período.
A segunda oração expressa causa em relação à primeira, enquanto a última indica uma consequência da segunda
A segunda oração apresenta uma oposição à terceira, e esta última apresenta uma explicação sobre as duas primeiras.
A primeira oração expressa causa, a segunda, oposição, e a última, conclusão.
As duas últimas orações expressam adversidade: a penúltima em relação à primeira, e a última em relação à penúltima.