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No trecho “Reponho a conta-gotas sem juros e a perder de...

• Texto para as questões de 1 a 10.


Confusão na certa


Venho caindo no golpe da esposa, muito praticado em casamentos longos, caracterizados pela confiança.

Eu fui quitar nossa viagem à vista, incluindo hospedagem e aéreo. Beatriz não deixou:

- Não faça isso, amor. É burrice. Coloque no meu cartão de crédito. Assim eu acumulo pontos e podemos viajar ainda mais. Depois você me passa.

No fim do mês, ela me especifica quanto devo. A questão é que o pagamento nunca termina, ou parece maior do que eu me lembrava.

Já fico com a sensação de que estou bancando os dispêndios dela.

Essa história de usar o cartão do outro dá confusão. Os valores são arredondados para cima.

Em vez de facilitar a comunicação, dificulta. Simplesmente por se importar unicamente com a sua fatura, e apagar da memória o trato firmado.

Não percebe o óbvio: sua fatura veio baixa porque gastou tudo na conta do seu par.

Na data do vencimento, ele festeja a boa notícia do seu boleto, numa miragem, numa ilusão, enquanto a má notícia corre ao lado. Sua alma gêmea sublinha com caneta hidrocor o que é a sua cota.

A verdade é que Beatriz sofre comigo. Sou pego de surpresa por aquilo que foi combinado previamente. É um defeito do software masculino.

Funciona assim para qualquer compromisso assumido. Ela marca um jantar com a família com um mês de antecedência. Só no dia, eu redescubro o jantar e tenho que desmarcar demandas que programei equivocadamente, como futebol ou bar com os amigos. Não anotei nada, apenas disse “sim” a ela.

O “sim” do homem é indefinido, profético, vago, sem prazo de validade, e serve para todas as ocasiões. Revela sua intenção de comparecer, não significa sua palavra empenhada.

Como não agenda horário no salão, não se arruma, acaba não conhecendo o poder das vésperas e dos preparativos. Não vive a contagem regressiva do evento.

Minha esposa não é malandra. Eu sou o malandro, mesmo que involuntário.

Posto que não reservo o dinheiro para honrar o acordo, eu chego ao cúmulo de parcelar o parcelamento feito no nome dela.

Reponho a conta-gotas sem juros e a perder de vista. Para se ter uma ideia do cambalacho, hoje ainda persiste um residual do mês de janeiro.

O que posso concluir é que o melhor empréstimo que existe no mercado tem sido permitir que a esposa pague as minhas despesas no seu cartão de crédito.


Fabrício Carpinejar – Texto Adaptado


Disponível em: https://www.otempo.com.br/opiniao/fabricio-carpinejar/2025/3/7/confusao-na-certa

No trecho “Reponho a conta-gotas sem juros e a perder de vista”, avalie o uso do hífen na palavra “conta-gotas”, à luz das normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, e assinale a alternativa correta.


A

O uso do hífen na palavra “conta-gotas” é facultativo, sendo aceitas as duas formas, com ou sem hífen, conforme a norma que permite essa variação em composições desse tipo.


B

A grafia “conta-gotas” está correta porque o segundo elemento inicia com a letra “g”, o que exige o uso do hífen após qualquer prefixo terminado em consoante.


C

O uso está incorreto, pois o termo deve ser grafado com hífen apenas quando usado como adjetivo composto; como está funcionando como substantivo, o uso não se aplica.


D

A palavra está correta, pois como regra geral, nas palavras compostas, o hífen é usado quando o primeiro termo está representado por forma substantiva, adjetiva, numeral ou verbal.