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Texto para as questões 36 e 37.
Notas
Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa1 , tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o fechar do caixão a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa2 , e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um… Isto que parece um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo.
ASSIS, M. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Disponível em: www.domíniopúblico.gov.br. Acesso em: 15.jul.2025.
O capítulo intitulado “Notas”, pertence a Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra inaugural do Realismo brasileiro, a qual coroou o estilo machadiano na literatura. Acerca da construção desse capítulo, à luz do estilo de Machado de Assis, é correto afirmar que
o trecho foi todo narrado por meio de um monólogo interior, permitindo ao leitor o acesso privilegiado à mente do narrador-personagem, criando uma experiência de leitura mais imersiva e reflexiva sobre o funeral descrito.
o trecho descreve o ritual fúnebre com frieza, quase como uma lista de tarefas, ratificando o efeito irônico das narrativas machadianas, já que trata um evento emocionalmente carregado (um funeral) com um tom analítico, distante e ordinário, beirando ao niilismo.
o narrador comenta o próprio processo de escrita, ao dizer que não escreverá o capítulo, embora tenha anotado tudo. Essa é uma marca metalinguística, típica do estilo machadiano, o que corrobora, no trecho, o fluxo de consciência e o monólogo interior que perpassam toda a narrativa.
a narrativa do capítulo é ascendente, cuja progressão temática leva a uma epifania tradicional, marca estilística peculiar à escrita de Machado de Assis, em que um instante breve e intenso, aparentemente banal, desperta uma compreensão inesperada, significativa e transformadora, como ocorre no funeral do personagem.
o capítulo é todo narrado por meio de um fluxo de consciência, uma técnica narrativa que busca reproduzir o fluxo espontâneo e desordenado dos pensamentos de um personagem, em que o capítulo em análise permite ao leitor perceber as associações de ideias, as memórias, os sentimentos e as sensações, de forma a criar uma representação mais próxima da experiência psicológica individual.