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Observe as orações: “Oferecia-lhe o peito ainda deitada...

Rosas na cabeceira


Mulher de cadeiras largas, sem esforço pariu o primeiro filho na cama que havia sido da sua família. Oferecia-lhe o peito ainda deitada, quando a vizinha veio visitá-la. Debruçou-se elogiando o pequeno, entregou à mãe a laranja que havia trazido, e cedo despediu-se. Mas ainda na porta voltou-se, olhou a cama.

– Leito de vida, leito de morte – disse sem alegria.

E se foi.

Era uma bela cama, de madeira lustrada por longo tempo e muitas mãos. Havia acolhido sua mãe, e a mãe de sua mãe. Mas a partir daquele dia a mulher não conseguiu deitar-se nela. Sem lembrar as palavras da vizinha. Pesadelos infiltravam-se em seus sonhos.

Esperou a vinda do mascate. Na tarde em que finalmente ouviu sua cantilena ecoando entre as casas, correu à rua e ofereceu-lhe a cama.

E como a mulher insistisse:

– Se é para lhe fazer um favor, levo. Mas só posso pagar quatro moedas.

A mulher alisou mais uma vez as rosas entalhadas na cabeceira. Depois entregou a cama em troca das quatro moedas, e a viu afastar-se na carroça do mascate.

Quatro moedas de pouco lhe serviam. Aquelas pareciam queimar na palma da mão. A mulher foi até o fundo do quintal, cavou um buraco na terra escura, e enterrou as moedas.

Passadas algumas semanas, como saber, entre tantas plantas, que uma muda despontava no lugar da terra mexida?

E a mulher teve outros filhos e seus filhos cresceram. E um dia sentiu uma tonteira, pensou que o sol estava escurecendo antes da hora, apoiou-se na parede. A mulher havia adoecido.

Deitou-se naquele dia em sua cama estreita. No dia seguinte, começou a definhar.

Definhou, definhou. Forças para levantar-se não teve mais.

Estava tão magra e frágil que o marido, querendo dar-lhe algum conforto, decidiu fazer para ela uma cama nova. A muda era agora uma árvore copada. O marido foi até o fundo do quintal e a abateu.

Durante dias serrou, lixou, martelou. Durante dias entranhou na madeira o seu próprio suor. Pronta a cama, firmes os encaixes, ainda poliu a cabeceira. Depois pegou o formão e, com cuidado, entalhou quatro rosas.


(COLASANTI, Marina. In.: Com certeza tenho amor. Ed. Gaudi: São Paulo. p. 47-49.)

Observe as orações: “Oferecia-lhe o peito ainda deitada, quando a vizinha veio visitá-la.” (1º§). É correto afirmar que a relação entre elas é de:


A

Causa.


B

Tempo.


C

Oposição.


D

Finalidade.