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Texto para questões de 73 a 75
O ciclo de lobolo começou com a Ju. Foi com dinheiro e não com gado. Lobolou-se a mãe, com muito dinheiro, num lobolo-casamento. As crianças foram legalmente reconhecidas, mas não tinham sido apresentadas aos espíritos da família. Era preciso trazê-las do teto da mãe para a sombra do patriarcal num ato de lobolo pelo filho, uma forma de legitimá-las uma vez que nasceram fora das regras de jogo de uma família polígamo. Depois fez-se lobolo da Lu e dos filhos. As nortenhas espantaram-se. Essa história de lobolo era nova para elas, mas envolve muito dinheiro. Dinheiro para os pais, elas, e os filhos. Dinheiro que faz falta para comer, para viver, para investir. Quando se trata de benesses, qualquer cultura serve. Elas esqueceram o matriarcado e disseram sim à tradição patriarcal. Passamos três meses a andar de festa em festa. Era importante que todos os lobolos fossem feitos numa rajada antes que o Tony mudasse de ideias.
CHIZIANE, P. Niketche: uma história de poligamia. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
A fim de fomentar reflexões, a partir de vozes de escritoras negras africanas ao currículo de Língua Portuguesa do Ensino Médio, uma rede de ensino pública decide inserir, como material didático, o romance Niketche: uma história de poligamia, da moçambicana Paulina Chiziane, representado pelo trecho em que é narrada a prática de “lobolo”, entendida como uma forma de legitimar as relações familiares por meio da entrega, por parte do noivo, de dinheiro ou bens à noiva e à sua família.
A exploração da leitura dessa obra, com base em uma perspectiva decolonial que oportuniza aos estudantes problematizações críticas por meio de uma postura investigativa, justifica-se pela concepção de literatura como espaço de
centralidade de valores humanistas universais, representada no trecho por meio de temas como amor, família e pertencimento, neutralizando, assim, especificidades culturais do texto.
representação de matrizes culturais africanas tradicionais, evidenciada no texto pela presença da poligamia como mote para a valorização do papel feminino de submissão na sociedade africana contemporânea.
tensionamento das estruturas de dominação representadas no texto, evidenciado por atitudes patriarcais vinculadas ao pagamento de dinheiro, por meio da prática do lobolo, às personagens femininas e às suas famílias.
construção de hierarquias em que vivências europeias são tidas como universais, refletida nessa valorização cultural, uma vez que a prática de lobolo é igual à do pagamento do dote na Europa da Idade Média.