

Seu próximo nível começa aqui
Seu desenvolvimento não pode ter limites. Garanta sua Assinatura Ilimitada e libere uma preparação completa com os melhores professores do Brasil.
Texto 3
LITERATURA DE FICÇÃO, ESCOLA E UTOPIA
Ricardo Azevedo
No final de seu livro A letra e a voz, o
suíço Paul Zumthor, estudioso da oralidade e
do discurso oral, diz que “o complexo é
muitíssimo mais provável do que o simples, e o
5 uno é muitíssimo menos provável do que o
diverso”. Creio que a literatura seja algo muito
complexo e diversificado. Não pode ser vista
como uma essência ou um elemento
monolítico, isolado e único: “a” literatura. Não!
10 Para mim, a literatura lembra mais uma rica e
frondosa árvore cheia de galhos e esses galhos
representam diferentes literaturas, todas
legítimas e todas irmãs, pois nasceram de um
mesmo tronco. Não podemos esquecer, porém,
15 que as literaturas são expressões da sociedade
em que são produzidas. Para o sociólogo
Norbert Elias, a literatura é sempre
“testemunho e expressão de um certo nível de
consciência”.
20 Parece razoável pensar que, nos
tempos individualistas, tecnológicos e
consumistas em que vivemos, as pessoas têm
sido levadas a enxergar e a valorizar mais as
coisas – dinheiro, automóveis, marcas, selfies,
25 gadgets, topetes, tatuagens, símbolos de
status – do que a valorizar as outras pessoas.
Vivemos, creio, num ambiente de grande
analfabetismo político e social. O “modelo de
consciência” dominante, para ficar com o termo
30 de Norbert Elias, parece ser essencialmente
técnico, e a técnica é utilitária, impessoal e
higiênica − classifica, analisa, controla e
determina a função de tudo. Além disso, a
técnica calcula, projeta, fabrica, comercializa e
35 visa ao menor custo e ao maior lucro. Para
alguns (Hannah Arendt em A condição
humana), a “racionalidade” nada mais é do que
o “cálculo das consequências”. É preciso
reconhecer que nem tudo é “previsível”. Uma
40 ideia nova, por exemplo.
Num ambiente apenas técnico,
impessoal, consumista e utilitarista – tempos,
volto a dizer, de analfabetismo político e social
– sinto que duas palavras andam cada vez mais
45 desacreditadas: uma é “ficção” e a outra é
“utopia”. É fácil escutar por aí vozes dizendo em
tom de desprezo: “Isso é bobagem! Isso é
ficção! Isso é só utopia!” Eis por que muitos
pais, naturalmente utilizando seu “cálculo das
50 consequências”, perguntam aflitos: para que
gastar dinheiro com literatura? Por que não dão
ao meu filho apenas livros técnicos, didáticos e
úteis? São visões equivocadas. Prefiro lembrar
de Mikhail Bakhtin, para quem “a ficção é uma
55 forma de experimentar a verdade”. Falar de
literatura significa falar de ficção e de
linguagem subjetiva. Por meio da ficção e da
linguagem, criamos situações humanas
complexas que não aconteceram, mas
60 poderiam ter acontecido, e, a partir daí, temos
a chance de pensar melhor sobre a vida e o
mundo.
A partir da literatura podemos nos
“redescrever” como pessoas. A literatura tem o
65 dom de ampliar nosso vocabulário subjetivo.
Não me refiro apenas ao número de palavras,
mas, sim, a palavras que entram no nosso
vocabulário de forma inesperada, para
expressar, expandir, ressignificar, “re-
70 descrever” nossos sentimentos, nossa visão
política e social, nossa leitura da vida e do
mundo.
AZEVEDO, Ricardo. Literatura de ficção, escola e utopia. In: FAILLA, Zoara (organização). Retratos da leitura no Brasil 5. Rio de Janeiro: Sextante, 2021. p. 116-127. Fragmento adaptado. Acesso em: 08/06/2025.
Segundo o autor, “Não pode ser vista como uma essência ou um elemento monolítico, isolado e único: ‘a’ literatura” (Linhas 7-9). A ênfase do “a” pelas aspas reforça a ideia de
superioridade, contida no pronome demonstrativo “a”.
diversidade, contida no artigo indefinido “a”.
singularidade, contida no artigo definido “a”.
coletividade, contida na preposição “a”.
destacabilidade, contida no pronome indefinido “a”.