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Algumas reflexões sobre o ensino da língua portuguesa no Brasil
É na década de 1950 que dois eventos impactam o ensino do português. Um deles é a publicação da Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), que selecionou conteúdos gramaticais, além de unificar a nomenclatura até então estudada, fornecendo um conjunto de conteúdos mais sistematizado, que contribuiu para o fortalecimento da centralidade da gramática em sala de aula, centralidade e primazia que já se haviam construído em decorrência da tradição jesuítica no ensino da gramática latina e do desaparecimento da retórica e da poética, assim como das antologias. Outra mudança importante é que parte majoritária da sociedade, até então excluída da escola, passa a reivindicar seu direito à escolaridade formal. Com a pressão pela democratização do acesso à educação, a escola começa a atender os filhos dos trabalhadores, razão pela qual as redes públicas se expandem significativamente, tendo de contratar professores em número muito maior do que aquele que até então atendia a pequena parcela de elite dominante, o que fez que o processo de escolha desses profissionais tenha sido menos seletivo e o trabalho docente se tenha tornado massificado e mal pago.
Trabalho excessivo e suas consequências didáticas
Com salários diminuídos, professores multiplicam sua carga de trabalho, o que faz com que busquem soluções mais práticas para sua atividade docente. É quando o livro didático (LD) passa a assumir importante papel: sobrecarregado com cargas didáticas que chegavam a ultrapassar 40 horas-aula semanais, o professor adota o LD como obra de estudo e preparação de aulas, assim como material de uso exclusivo na regência de classe. O professor distancia-se do conteúdo que desenvolve junto a seus alunos, não sendo mais responsável pela escolha do que vai ensinar. É o livro didático que define o que é certo ou errado. Veja-se o ensino do vocabulário, tradicionalmente presente em forma de um glossário ao final de cada texto de unidade didática, em que a cada palavra considerada de difícil compreensão se associava um significado, enfatizando-se os falsos princípios da equivalência lexical e dos significados absolutos.
Um ensino de língua portuguesa remodelado?
Mais recentemente, com a publicação, em 2018, da Base Nacional Comum Curricular, documento federal orientador dos currículos estaduais e dos currículos municipais de todo o país, consolidou-se o ensino de língua portuguesa com base nos gêneros discursivos, resultado da influência do fortalecimento da área dos estudos do discurso no ensino-aprendizagem da língua materna.
Com o desenvolvimento dos estudos da linguística aplicada, por meio dos quais se compreende que o trabalho sobre o gênero envolve também e principalmente seus aspectos estilísticos, é que os recursos linguístico-gramaticais ganham espaço nas aulas de língua portuguesa não mais em perspectiva normativa, mas como escolhas léxico-gramaticais das quais depende a constituição do gênero e que são responsáveis pelos efeitos de sentido dos atos enunciativos. Ainda que essa prática não se tenha universalizado, em razão da precariedade da formação de professores no país e do pouco acesso que têm ao desenvolvimento das teorias linguísticas, parece que a gramática está em vias de encontrar um espaço que condiz com seu grandioso papel na produção de sentidos dos textos.
Fonte: GIL, Beatriz Daruj; MÓDOLO. Algumas reflexões sobre o ensino da língua portuguesa no Brasil. Jornal da USP. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/algumas-reflexoes-sobre-o-ensino-da-linguaportuguesa-no-brasil/. Acesso em: 25 de set. 2023.Adaptado.
A tipologia do texto lido é predominantemente expositiva, pois seu principal propósito é informar sobre fatos reais, de forma objetiva. Contudo, o fragmento que apresenta outra tipologia é
“Ainda que essa prática não se tenha universalizado [...] parece que a gramática está em vias de encontrar um espaço que condiz com seu grandioso papel na produção de sentidos dos textos.”, pois apresenta um posicionamento dos autores.
“Com o desenvolvimento dos estudos da linguística aplicada, por meio dos quais se compreende que o trabalho sobre o gênero envolve também e principalmente seus aspectos estilísticos”, já que organiza uma sequência de eventos ocorridos ao longo do tempo.
“o ensino do vocabulário, tradicionalmente presente em forma de um glossário ao final de cada texto de unidade didática, em que a cada palavra considerada de difícil compreensão se associava um significado.”, pois apresenta instruções sobre o que deve ser feito.
“Mais recentemente, com a publicação, em 2018, da Base Nacional Comum Curricular, documento federal orientador dos currículos estaduais e dos currículos municipais de todo o país, consolidou-se o ensino de língua portuguesa com base nos gêneros discursivos”, já que narra dados históricos situados no tempo.
“sobrecarregado com cargas didáticas que chegavam a ultrapassar 40 horas-aula semanais, o professor adota o LD como obra de estudo e preparação de aulas”, pois descreve com detalhes a situação relatada.