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Leia o texto a seguir para responder às questões de 01 a 03.
Estado de graça
Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte.
O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Neste estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve, porque na graça tudo é tão, tão leve. É uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom, porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça, vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe – pessoa ou coisa – respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Na verdade, o mundo é impalpável.
Não é nem de longe o que mal imagino deva ser o estado de graça dos santos. Esse estado jamais conheci e nem sequer consigo adivinhá-lo. É apenas o estado de graça de uma pessoa comum que, de súbito, se torna totalmente real, porque é comum e humana e reconhecível.
As descobertas nesse estado são indizíveis e incomunicáveis. É por isso que, em estado de graça, mantenho-me sentada, quieta, silenciosa. É como numa anunciação. Não sendo, porém, precedida pelos anjos que, suponho, antecedem o estado de graça dos santos, é como se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.
Depois, lentamente, se sai. Não como se estivesse estado em transe – não há nenhum transe –, sai-se devagar, com um suspiro de quem teve o mundo como este é. Também já é um suspiro de saudade. Pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma e a terra, quer-se mais e mais. Inútil querer: só vem quando quer e espontaneamente. (...)
LISPECTOR, Clarice. Estado de graça. Portal da crônica brasileira. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12666/estado-de-graca-trecho>.
“É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe.”
Assinale a alternativa que apresenta, na mesma ordem, a função de cada palavra destacada no trecho acima.
Conjunção que introduz o sentido de condição ou hipótese / Pronome que torna a oração seguinte na voz passiva
Palavra que realça o sentido da oração seguinte / Pronome que torna a oração seguinte na voz passiva
Conjunção que introduz o sentido de condição ou hipótese / Palavra que realça o sentido da oração seguinte
Pronome que torna reflexiva a ação da oração / Palavra que torna o sujeito da oração indeterminado
Palavra que torna o sujeito da oração indeterminado / Pronome que torna reflexiva a ação da oração