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O elemento que caracteriza esse texto como uma crônica é a

Texto para as Questões de 06 a 10.

De próprio punho

A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda

que vai do simples bilhete aos originais de um livro

1 Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão “de próprio punho”. Parecia

2 que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem

3 burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade,

4 o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais

5 fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra,

6 hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca,

7 mais rotunda e mais cheia de arestas.

8 É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita,

9 manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso

10 não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que

11 eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de

12 tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou

13 sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever

14 neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais

15 ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias

16 possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje,

17 são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou

18 três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times

19 New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de “letras” à minha escolha. Eu e Deus

20 e o mundo.

21 A despeito desse rol de chances e ferramentas para escrever, o manuscrito nunca

22 deixou de pintar aqui e ali, muitas vezes como obrigação. Na escola, por exemplo, até

23 hoje ele é soberano. No Enem também. Curioso, não? Fico pensando em que espaços

24 e ocasiões ainda uso minha letra. Olhando ao redor, na minha casa, minha letra está

25 em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes. Eles estão principalmente na

26 cozinha, em especial na porta da geladeira, a fim de manter a comunicação com meus

27 coabitantes, sempre muito esquecidos ou relapsos. Mas também há bilhetes em post its

28 na minha mesa do escritório, textinhos em garranchos por meio dos quais me comunico

29 comigo mesma, a evitar um comportamento esquecido e relapso.

30 No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma, mas também muito mais

31 lacônica, a ponto de nem eu me entender, se passar o tempo. Em todos os casos vai

32 minha letra, menos e mais redonda, a lápis e a tinta azul, em post its rosa-choque, colados

33 precariamente, e todos com destino à lixeira, em breve. Justo porque eles funcionam

34 como lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas e, claro, substituídas por

35 outras, num fluxo infinito, às vezes ansiogênico, com que a maioria dos adultos (e mais

36 ainda as adultas) precisa conviver.

37 As formas de escrever mudam, as necessidades também, e o resultado é um elenco

38 complexo, em que nada dispensa nada, a depender da tarefa ou da importância das coisas

39 ou de suas funções, claro. A escrita e suas tecnologias incríveis vão se reposicionando,

40 mudando de status, numa ciranda interessante e importante que pode ser vista à luz de

41 certa diversidade que encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui e ali. Não adianta

42 muito pensar sempre como se tudo fosse excludente. Estão aí minha farta comunicação

43 por bilhetes, minha gaveta alegre de post its de toda cor, esperando para serem usados,

44 e o cheque do cartório, em que quase tudo já é digital. “Do punho ao pixel” não é uma

45 frase filosoficamente correta. O negócio é mais “o punho e o pixel”.


RIBEIRO, A. E. Disponível em: https://rascunho.com.br.

Acesso em: 16 jan. 2024 (adaptado).

O elemento que caracteriza esse texto como uma crônica é a


A

defesa das opiniões da autora sobre um tema de interesse coletivo.


B

exposição sobre o uso de tecnologias nas práticas de escrita atuais.


C

abordagem de fatos do contexto pessoal em uma perspectiva reflexiva.


D

utilização de recursos linguísticos para a interlocução direta com o leitor.


E

apresentação de acontecimentos segundo a ordem de sucessão no tempo.