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“(...)Torquato traz uma visão mais potente acerca das...

Poesia de Torquato Neto ilumina a melancolia e a

vida do menino infeliz

1 O poeta Torquato Neto é um desses segredos

que muita gente conhece sem saber. Quem

chorou com Edu Lobo em "Pra Dizer Adeus"

conhece Torquato.

2 Quem, em outra onda, cantarolou "Go Back"

acompanhou o poema do autor na ver__ão

musicada pelos Titãs. E mais: é dele a

descon__ertante letra de "Mamãe Coragem",

que Gal Costa elevou ao sublime em "Tropicália

ou Panis et Circen__es".

3 A poesia escrita de Torquato é bem menos

explorada. "O Fato e a Coisa", publicado pelo selo

Círculo de Poemas —projeto da Luna Parque com

a Fósforo— é uma bela porta para quem quiser

adentrar a obra pelas mãos do próprio autor.

4 Único volume organizado por Torquato, o livro

reúne poemas escritos de 1961 a 1964, quando

ele tinha entre 16 e 19 anos e vivenciava as

mudanças da adolescência para a idade adulta, e

da Teresina natal para o Rio de Janeiro.

5 Escritos antes de Torquato sofrer o impacto da

poesia concreta e do pop dos Beatles e da Jovem

Guarda –que contribuiria para tornar sua obra

uma das mais emblemáticas da tropicália–, os

poemas de "O Fato e a Coisa" têm o encanto de

mostrar algumas das tensões afetivas que iriam

marcar a escrita do autor ao longo dos (poucos)

anos de sua produção. Comove, sobretudo, a

resistência manifesta, e quase sempre

fracassada, contra a melancolia.

6 Embora alguns dos poemas do livro já tivessem

vindo a público em boas coletâneas, tomar

contato com eles na ordem desenhada pelo

próprio Torquato traz uma visão mais potente

acerca das tensões e da resistência.

7 A coerência interna do volume se articula no

diálogo entre os substantivos do título,

recorrentes nas páginas. O "fato" é o duplo,

adulto e triste, do menino que cresce: "Te sinto

apenas a repetição de minha angústia/ vezes

dois". Já a "coisa" é o que pode escapar, na forma

da "coisa, alucinante coisa, / inexcedível coisa".

8 Sintomática é também a escolha do poema de

abertura, "Explicação do Fato", em que o sujeito

lírico crava: "Impossível envergonhar-me de ser

homem", um verso aliás delicioso de se ler em

2022. O "homem" aqui é, sim, o ser de sexo

masculino, mas é sobretudo o indivíduo que se vê

em um corpo humano e adulto e quer recusar a

prostração do pavor e do silêncio.

9 "E insisto porque insistir é minha insígnia",

escreve. E, no entanto: "Como não morrer de

medo se esta noite é fera/ e dentro dela eu

também sou fera/ e me confundo nela/ e ainda

insisto?".

10 "Não é viável", ele escreve, e é impossível

esquecer que, cerca de uma década após

escrever o poema, Torquato morreria por decisão

própria, um dia após completar 28 anos, em

1972. Do mesmo modo, __ muitas menções __

ideia de suicídio neste livro de juventude acabam

se revestindo de ares de prognóstico, quando

poderiam muito bem ser lidas na chave da

temática do ultrarromantismo adolescente.

11 É um livro adolescente, afinal, e quem abri-lo em

busca de ambição temática e ruptura formal

ficará frustrado e não aproveitará as melhores

páginas. Nelas, o impressionante domínio de

ritmo de Torquato se alia a certa desolação

drummondiana –influência que mais se nota no

livro e que ultrapassa o mero cacoete de

admirador– para compor uma poesia elegante e

delicada.

12 No lindíssimo "A Mão e a Luva", um telefone é

signo do desejo de amparo, pois "a pessoa existe

incomunicável/ e longe —mas existe/ e

atenderá".

13 Além dos poemas de "O Fato e a Coisa", a edição

recém-lançada inclui uma seleção ampla de

escritos da juventude, que perde força ao incluir

poemas menos interessantes entre algumas boas

composições — por exemplo, o derramado

"Stop;" e o maiakovskiano "A Gênese Telúrica".

14 Em todos os poemas, porém, reside um brilho

oriundo do encantamento com a vida, que quer

triunfar sobre a desesperança. Ao falar do

suicídio de Torquato em seu "Verdade Tropical",

Caetano Veloso escreveu que, apesar de tudo,

"leveza" era a melhor palavra para descrever a

atmosfera produzida pela presença do amigo. É

exatamente esse o paradoxo que emerge, com

precisão, ritmo e doçura, das páginas de "O Fato

e a Coisa".

Disponível em:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/12/poesia-de-torquato-neto-ilumina-a-melancolia-e-a-vida-do-menino-infeliz.shtml

“(...)Torquato traz uma visão mais potente acerca das tensões e da resistência.” (6° parágrafo)

Assinale a opção que indica o significado atribuído pelo emprego do advérbio “mais”:


A

Modo.


B

Afirmação.


C

Negação.


D

Dúvida.


E

Intensidade.