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Para a questão 25, considere o trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha abaixo:
“Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim! [...]
Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos — terra que nos parecia muito extensa.
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!”
(Caminha, P. V. (1500). Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel. In: Cartas de Achamento do Brasil. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000099.pdf. Acesso em: 24 out. 2025.)
Considerando o trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha e os pressupostos discursivos do Quinhentismo no Brasil, particularmente no âmbito da escrita informativa e catequética que caracteriza a literatura de viagem, assinale a alternativa que apresenta uma interpretação crítica coerente com o contexto ideológico e estético do documento.
O narrador constrói uma perspectiva etnográfica isenta, reconhecendo a alteridade indígena como sistema cultural autônomo e atribuindo ao encontro uma interação simétrica, própria de um olhar protomoderno sobre a diversidade.
A descrição do território e da população indígena está subordinada a um projeto expansionista e evangelizador, que mobiliza topoi da abundância natural e da “simplicidade” dos nativos para legitimar a missão colonizadora da Coroa portuguesa.
O texto rompe com os paradigmas da literatura medieval europeia, recusando metáforas religiosas e abandonando por completo o discurso teleológico associado à salvação e ao domínio espiritual.
A carta evidencia uma crítica explícita ao etnocentrismo europeu, defendendo que a conversão forçada comprometeria a integridade cultural dos povos originários e deveria ser evitada pelas autoridades régias.
A valorização do ambiente brasileiro e de seus habitantes emerge de uma noção de alteridade romântica, típica do indianismo oitocentista, que idealiza o indígena como herói nacional anterior à construção do Estado.