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Obsessão
Agora que já vivi o meu caso, posso rememorá-lo com mais serenidade. Não tentarei fazer-me perdoar. Tentarei não acusar. Aconteceu simplesmente.
Sempre fui sossegada e nunca dei provas de possuir os elementos que Daniel desenvolveu em mim. Nasci de criaturas simples, instruídas naquela sabedoria que se adquire pela experiência e se adivinha pelo senso comum.
Quanto aos meus sonhos, nessa idade tão cheia deles – os de uma jovem qualquer: casar, ter filhos e, finalmente, ser feliz, desejo que eu não precisava bem e confusamente enquadrava nos fins dos mil romances que lera, sem me contagiar com seu romanticismo. Eu apenas esperava que tudo corresse bem, embora nunca me tomasse de contentamento se assim sucedia.
Aos dezenove anos encontrei Jaime. Casamo-nos e alugamos um apartamento bonito, bem mobiliado.
Jaime foi sempre bom para mim. E, seu temperamento pouco ardente, eu o considerava de certo modo um prolongamento de meus pais, de minha casa anterior, onde habituara-me aos privilégios de filha única.
Vivia facilmente.
Denso véu isolava-me do mundo e, sem o saber, um abismo distanciava-me de mim mesma.
E assim continuei até que contraí febre tifoide e quase morri. Minhas duas casas se mobilizaram e num trabalho de noites e dias salvaram-me.
A convalescença veio me encontrar magra e pálida, sem gosto para nada do mundo. Mal me alimentava, irritava-me com simples palavras. Passava o dia recostada sobre o travesseiro, sem pensar, sem me mover, presa por anormal e doce languidez. Imagino antes que forçava minha fraqueza para conservar as pessoas ao redor de mim, como na fase da doença. Quando Jaime chegava do trabalho, meu ar de fragilidade acentuava-se propositalmente.
E um dia, em que eu até já esquecera minha atitude de “convalescente”, comunicaram-me que eu passaria dois meses em Belo Horizonte, onde o bom clima e o novo ambiente me fortificariam.
Talvez tenha sido o começo. Fora de minha órbita, longe das coisas como que nascidas comigo, senti-me sem apoio porque afinal nem as noções recebidas haviam criado raízes em mim, tão superficialmente eu vivia. Pela primeira vez davam-me uma oportunidade de ver com meus próprios olhos.
Daniel morava na pensão onde eu me alojara. Nunca se dirigira a mim, nem eu o notara particularmente. Até que um dia ouvi-o falar, caindo subitamente em conversa alheia, embora não abandonando aquele seu ar de distância, como se tivesse emergido de um sono espesso. Sobre o trabalho. Que não deveria constituir senão um meio de matar a fome imediata. E, distraindo-se a escandalizar os circunstantes, acrescentou – a qualquer momento abandonaria o seu, o que já fizera várias vezes, para viver como “um bom vagabundo”.
E assim conheci Daniel. Não me recordo dos detalhes que nos aproximaram. Sei apenas que fui eu que o procurei. E sei que Daniel se apoderou progressivamente de mim. Ele me considerava com indiferença e, eu o imaginava, jamais teria se inclinado à minha pessoa se não me achasse curiosa e divertida. Minha atitude de humildade diante dele era o meu agradecimento ao seu favor... Como eu o admirava. Quanto mais sofria o seu desprezo, tanto mais eu o considerava superior, tanto mais o separava dos “outros”.
Assemelhava-se ao que precederia uma realização e ele ardia por alcançá-lo, sentindo-se, quanto mais sofria, mais vivo, mais castigado, quase satisfeito. Era a dor da criação.
(LISPECTOR, Clarice. Todos os Contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016. Fragmento.)
Assinale a alternativa em que a palavra em destaque está INDEVIDAMENTE interpretada.
“A convalescença veio me encontrar magra e pálida, [...]” (9º§) – doença.
“E sei que Daniel se apoderou progressivamente de mim.” (13º§) – aos poucos.
“[...] sem pensar, sem me mover, presa por anormal e doce languidez.” (9º§) – desânimo.
“[...] embora nunca me tomasse de contentamento se assim sucedia.” (3º§) – entusiasmo.