Imagem de fundo

Assinale a alternativa em que é apresentada oração cujo...

Texto para as questões de 1 a 8.


1 “Tinha um fogão ali, entendeu? Já colocavam em cada unidade um fogão. Olha que coisa!”, conta o bancário

aposentado Lismar Fonseca, morador do Conjunto Habitacional Santa Cruz, na Vila Mariana, bairro de São Paulo. No

depoimento concedido em 2015 à historiadora e arquiteta Flávia Brito do Nascimento, ele relembra o maravilhamento

4 da mãe ao chegar na década de 1940 ao imóvel recém-construído e deparar-se com o eletrodoméstico, oferecido como

parte integrante da nova casa.

A entrevista é uma das mais de 50 realizadas na década de 2010 por Nascimento, professora da Faculdade de

7 Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP), com moradores de quatro conjuntos

habitacionais paulistas. A história oral foi parte fundamental de sua pesquisa de livre-docência apresentada em 2022

na USP.

10 Entre outros pontos, Nascimento analisa a moradia popular erguida entre os anos 1940 e 1960 nas cidades do

Rio de Janeiro e de São Paulo. O período é conhecido como o auge da arquitetura moderna no país. “Os conjuntos

habitacionais se tornaram agenda de Estado com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder em 1930 e essa política

13 ganhou força a partir do Estado Novo [1937-1945]”, conta Nascimento. “Na concepção varguista, a organização do

trabalho passava também pela estruturação de uma moradia. Os arquitetos modernos brasileiros vão encontrar nessa

política de moradia social um lugar para colocar suas ideias em prática, muito pautadas pela racionalização dos

16 espaços.”

Segundo a pesquisadora, até o início da ditadura militar (1964-1985), o ciclo de construção de moradias sociais

no país foi conduzido, em grande parte, pelos institutos de aposentadorias e pensões de diversas categorias

19 profissionais, que estavam sob a tutela do governo federal. “Os institutos disponibilizavam unidades de moradia aos

afiliados, que eram apenas alugadas e não vendidas, mediante desconto em folha de pagamento”, esclarece

Nascimento. “Esses conjuntos habitacionais foram construídos em várias partes do Brasil.”

22 Os conjuntos habitacionais visitados em São Paulo pela arquiteta durante a pesquisa foram iniciativas do

Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI) e do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários

(IAPB). “Em geral, os trabalhadores sindicalizados inscritos eram pessoas de baixa renda e precisavam ter uma família

25 ou ser casados para poder morar no apartamento”, diz a arquiteta.

As mulheres solteiras eram exceção no universo habitacional promovido pelo Estado, como lembra a

pesquisadora. “Para os solteiros e solteiras, houve projetos de conjuntos específicos, embora em número reduzido, a

28 exemplo da Casa da Bancária, construída no final dos anos 1950 pelo IAPB, no Rio de Janeiro”, relata.

Segundo a pesquisadora, o Estado promoveu essa política habitacional a partir dos anos 1930 visando não

apenas ao bem-estar social. “Era também uma forma de interferir na vida privada dos trabalhadores”, constata.

31 A cientista social Silvana Rubino, do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas

(Unicamp), conta que a engenheira Carmen Portinho, diretora entre 1948 e 1960 do Departamento de Habitação

Popular (DHP), órgão da Prefeitura do Rio de Janeiro, teve a ideia de fazer o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de

34 Morais, conhecido como Pedregulho, após uma temporada na Europa. Inaugurada em 1950, no bairro São Cristóvão, a

construção foi desenhada pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy, companheiro da engenheira e então diretor do

Departamento de Urbanismo da prefeitura carioca. “O projeto teve grande participação de Carmen, embora não leve

37 sua assinatura”, afirma Rubino.

A engenheira buscava nos projetos de moradia do DHP simplificar os espaços das casas para as moradoras.

Exemplo disso é a lavanderia coletiva do Pedregulho. “Em consonância com o pensamento moderno, ela propunha

40 que a ‘mão cansada’ da mulher trabalhadora que habitaria o conjunto não deveria encontrar um tanque em cada

unidade, e sim uma lavanderia para todos, eventualmente ocupada por trabalhadoras remuneradas para fazer aquele

serviço”, conta Rubino.

43 Entretanto, a lavanderia coletiva logo se tornou motivo de polêmica. Isso porque o equipamento, que contava

com máquinas de lavar importadas dos Estados Unidos, situava-se em uma edificação à parte, onde ficava também o

mercado. Segundo Nascimento, a exposição das roupas surradas e o trabalho de levá-las para lavar fora encontraram

46 resistência entre uma significativa parcela dos moradores do Pedregulho. “As pessoas passaram a improvisar a

lavagem da roupa da família em baldes e bacias dentro dos apartamentos”, acrescenta Rubino.

No caso do Pedregulho, os inquilinos naqueles primórdios eram funcionários da prefeitura, como vigilantes e

49 garagistas, que vinham de habitações precárias ou casas simples em vilas operárias. “As assistentes sociais do DHP

buscavam estabelecer um vínculo entre os moradores e aqueles espaços construídos dentro dos preceitos da

arquitetura moderna. Em suma, elas ensinavam a maneira ‘correta’ de essas pessoas interagirem com suas casas”,

52 comenta Rubino. Segundo a pesquisadora, a estratégia incluía um apartamento modelo no próprio Pedregulho,

ocupado por mobiliário moderno. “Foi essa a imagem que circulou o mundo em periódicos, mas ela não correspondia

nem de longe à apropriação do espaço pelos moradores”, observa.


CARINI, Márcia. Vida em conjunto. In: Revista Pesquisa Fapesp, ed. 358, nov./2025 (com adaptações).

Assinale a alternativa em que é apresentada oração cujo sujeito se classifica como indeterminado.


A

“entendeu?” (linha 1)


B

“Já colocavam em cada unidade um fogão” (linha 1)


C

“que estavam sob a tutela do governo federal” (linha 19)


D

“diz a arquiteta” (linha 25)


E

“relata” (linha 28)