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Texto para as questões de 6 a 10.
Xenofobia: quando o outro se torna espelho
Há épocas em que a xenofobia se esconde; outras, em que caminha no centro da praça, iluminada pelo sol da manhã, como se fosse uma verdade antiga que todos tivessem esquecido de questionar. Mas ela nunca desaparece por completo. Permanece à espreita, silenciosa, esperando o instante em que um estrangeiro cruze a rua para reacender a velha suspeita: quem chega ameaça aquilo que julgamos ser nosso.
Trata-se de um medo que não nasce da chegada do outro, mas do abalo das fronteiras invisíveis que sustentam nossas identidades. O estrangeiro, ao adentrar um território, desloca sentidos, abre frestas, desorganiza a paisagem que tomávamos por natural. Por isso, muitas sociedades o recebem com sorrisos que duram menos que um amanhecer. A hospitalidade, nesse caso, tem a mesma fragilidade de uma cortina batida pelo vento: abre-se, mas fecha-se depressa.
No Brasil, a figura do forasteiro carrega marcas que ultrapassam a nacionalidade. O que chamamos de “estrangeiro” é, muitas vezes, alguém atravessado por desigualdades históricas: pele, acento, pobreza, cor, deslocamento forçado — uma soma de diferenças que, ao invés de ampliar a humanidade, torna-se motivo para suspender direitos. A xenofobia, aqui, veste a roupa fina do racismo e passa quase despercebida, como se fosse apenas cuidado, precaução ou regra social. No fundo, é xeno-racismo: uma forma de rejeição que opera com códigos complexos, mascarada por gestos aparentemente banais.
Os estereótipos, uma vez instalados, percorrem bairros, escolas, esquinas, repartições públicas. Diz-se que o migrante pesa, que compete, que ameaça — e esses enunciados, repetidos como quem repete uma oração antiga, tornam-se chão duro, justificando portas entreabertas e acolhimentos condicionados. Políticas públicas surgem, mas raramente rompem com a lógica do controle: permitem a presença, mas apenas sob vigilância; permitem a sobrevivência, mas raramente a plena cidadania.
A educação, que deveria ser a casa onde todas as línguas cabem, muitas vezes se converte em palco de silenciamentos. Professores estrangeiros são olhados com desconfiança; estudantes que chegam de longe carregam no corpo a marca de serem “demais”: diferentes demais, diversos demais, estrangeiros demais. A ausência de uma educação que enfrente o racismo e reconheça a pluralidade transforma escolas em lugares de fronteira, onde o pertencimento não está garantido.
Por isso, pensar a xenofobia não é uma tarefa moralista: é uma tarefa política, histórica e profundamente humana. As leis podem proteger, mas não transformam sozinhas as narrativas que moldam o imaginário de um país. É preciso revisitar os mitos da identidade nacional, desmontar a dicotomia entre “quem pertence” e “quem ameaça”, desfazer a ilusão de que a homogeneidade é conforto.
Talvez a convivência com o outro comece quando percebemos que toda identidade é, por definição, inacabada. Que só nos reconhecemos inteiros quando somos atravessados por diferenças. Que a alteridade, longe de ser um risco, é uma espécie de dádiva: ela nos faz reaprender a ser humanos.
E, afinal, nenhuma sociedade que se fecha realmente se protege; apenas se apequena, como uma casa que, com medo do vento, decide lacrar todas as janelas.
ALMEIDA JR., Antenor Teixeira de; Xenofobia: quando o outro se torna espelho. Texto ensaístico-literário inédito Fortaleza, 2025. Texto autoral elaborado a partir de informações de Brasil Escola (2025), Revista REMHU/CSEM (2023–2024), Revista Ceaju/UERJ (2023), Revista do Serviço Público/ENAP (2024) e ALACIP (2023). Fortaleza, 2025.
No texto, observa-se que a xenofobia é descrita por meio de expressões em que a adjetivação qualifica não apenas substantivos concretos, mas também ideias abstratas e metáforas sociais, como em “a mesma fragilidade de uma cortina batida pelo vento” e “plena cidadania”. Sobre a concordância nominal nessas construções e em enunciados que seguem a mesma regra de funcionamento, marque o item correto.
Em “fronteiras invisíveis que sustentam nossas identidades”, o adjetivo “invisíveis” poderia concordar apenas com “fronteiras” ou apenas com “identidades”, ambas formas aceitas pela norma culta, por se tratar de adjetivo posposto.
Em “acolhimentos condicionados”, a forma “condicionados” poderia ser flexionada no singular — “acolhimento condicionado” — sem alteração de sentido, pois a concordância nominal é facultativa em substantivos abstratos.
No trecho “diferenças que, ao invés de ampliar a humanidade, tornam-se motivo para suspender direitos”, o termo “motivo” poderia flexionar-se no plural — “motivos” — para concordar semanticamente com “diferenças”, sem prejuízo da correção.
Na expressão “hospitalidade […] de mesma fragilidade”, o adjetivo “mesma” concorda obrigatoriamente com o substantivo “fragilidade”, assim como ocorre em construções paralelas como “igual ternura”, “idêntica condição” e “singular beleza”.