Anda raro a gente flagrar alguém se emocionando de verdade
Por Martha Medeiros
- Ando sentimental. Quase fui às lágrimas ao assistir na TV um comercial do Enem
- chamando para inscrições: a propaganda mostrava cenas reais de estudantes no momento exato
- em que descobriam que haviam passado no vestibular. Uma sequência de vídeos caseiros,
- gravados por familiares. Jovens incrédulos, cercados por seus pais e amigos,
- debulhando-se. Nenhuma emoção ensaiada, apenas a explosão de alegria e alívio diante de uma
- vitória pessoal. Anda raro a gente flagrar alguém se emocionando de verdade sem que seja uma
- performance para impressionar nas redes sociais.
- Eu tinha 17 anos quando fiz vestibular para Comunicação Social. Era um curso menos
- concorrido que Medicina, mas não era tão fácil passar, tanto que não passei na federal. Acabei
- tentando a PUC. Fiz cursinho e estudei, mas não me debrucei sobre os livros com __ obse...ão
- necessária, então havia, sim, a possibilidade de eu rodar pela segunda vez. Não seria o fim do
- mundo, mas eu fracassaria diante dos meus pais, que haviam investido na minha preparação, e
- fracassaria também diante dos meus amigos, alguns já aprovados em concursos anteriores.
- Acordei apavorada no dia do listão.
- Naquela época, janeiro de 1980, alguns vestibulandos nem esperavam o sol nascer:
- amanheciam nas ...edes dos cursinhos ou das próprias universidades, onde a lista impressa com
- os nomes dos aprovados era fixada nas paredes. Todo mundo se acotovelava, se amontoava uns
- sobre os outros, na sofreguidão de encontrar seu nome. De repente, do meio do grupo pulava
- alguém __ gritos de felicidade, enquanto outros saíam cabisbaixos, enxugando os olhos –
- câmeras de TV flagravam tudo. Já os candidatos menos ansiosos esperavam para escutar seu
- nome pelo rádio, que transmitia a lista inteira, curso por curso, bixo por bixo, em ordem
- alfabética. Foi como eu aguardei o final dessa história.
- Já transcorria metade da manhã quando o locutor entrou no ar anunciando os aprovados
- em Análise de Sistemas, Arquitetura e outros cursos que começavam com “A”. Eu estava em
- casa com a família em volta. Quando chegou a vez dos aprovados em Comunicação, não segurei
- a pressão, abandonei a sala onde estávamos reunidos. Não quis que testemunhassem meu
- fracasso. Fui para o quarto, sozinha, e liguei o radinho de pilha. Começou. Escutei o nome da
- Angélica, uma conhecida. Escutei o nome da Katia, minha melhor amiga.
- Me arrependi de não ter estudado mais. Começaram as Marias, várias. Meu coração
- parado. Então ouvi meu nome e, em ê...tase, gritei para o rádio: repete! Acreditava e não
- acreditava. Mas o locutor já estava dando a boa notícia à Nancy. Alguém devia ter filmado __
- minha emoção vertendo. Não era medo de fracassar, hoje sei. Eu tinha era pudor de ser feliz na
- frente dos outros. Não tenho mais.
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/martha-medeiros/noticia/2025/06/anda-raro-a-gente-flagrar-alguem-se-emocionando-de-verdade-cmc4rpsxv003w016rn0t4nfvl.html – texto adaptado especialmente para esta prova).