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Texto XIV
Analfabetismo
1 Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.
2 Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:
3 — Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.
4 A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:
5 — A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, — por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.
6 Replico eu:
7 — Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições…
8 — As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas — “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.
9 E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.
15 de agosto de 1876
ASSIS, Machado. Crônicas escolhidas. São Paulo: Ática, 1994. p. 19.
Machado de Assis foi um grande cronista de seu tempo.
Na crônica lida (Texto XIV), de 1876, é possível observar, como traços constituintes de sua literatura, uma
análise naturalista da realidade política do país construída por meio de uma narrativa não linear e multiperspectivada.
alegoria acerca da política brasileira com base num ponto de vista escapista e análogo entre a narração e o objeto narrado.
impessoalização da narrativa acerca do analfabetismo no Brasil a partir da lógica do determinismo biológico.
reflexão crítica sobre a representação política brasileira, utilizando-se de estrutura apologal e humor fino.
ruptura com os padrões estéticos românticos segundo uma operacionalização estética metalinguística.