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As questões de 06 a 17 referem-se ao texto reproduzido a seguir.
Texto 1
A reação à democratização das relações sociolinguísticas
Marcos Bagno
Numa sociedade como a brasileira, marcada desde suas origens por uma divisão social profunda entre uma minoria privilegiada e uma imensa maioria marginalizada, a língua sempre foi um símbolo importante para as elites dominantes. “Saber português” é uma condição tida como sine qua non para que alguém se incorpore ao círculo dos que podem — é o melhor exemplo daquilo que Pierre Bordieu chama de distinção. No entanto, o suposto conhecimento do “português correto” é uma mera fachada para justificar o emprego de outros instrumentos, mais complexos e sofisticados, destinados a preservar a desigualdade social. Afinal, num país tão racista, se a pessoa for negra ou índia, por exemplo, por melhor que conheça a norma-padrão tradicional, já estará excluída do acesso ao círculo dos privilegiados pela simples cor de sua pele. O mesmo se diga com relação ao nordestino no Sudeste, a homossexuais ou a mulheres, cegos, surdos, deficientes físicos, em muitos âmbitos da vida social, econômica e política.
A difusão do preconceito linguístico não é novidade na história do Brasil. Pelo contrário, é uma das marcas da nossa formação histórica: desde o Diretório dos Índios, decretado pelo Marquês de Pombal no século XVIII para proibir o ensino das língua indígenas e impor o português, passando pelo extermínio sistemático de centenas de povos indígenas e suas línguas, pela distribuição dos escravos africanos em lotes contendo indivíduos que não falavam as mesmas línguas, chegando ao século XX com o “crime idiomático” definido pela ditadura Vargas para coibir o uso do alemão, do italiano e outras línguas de imigração durante a II Guerra Mundial.
Entretanto, em sua versão mais recente, essa difusão parece ser motivada por uma reação de alguns setores da elite mais letrada contra o nivelamento sociolinguístico que vem sendo detectado há pelo menos cinquenta anos na sociedade brasileira, devido sobretudo ao processo de intensa urbanização da nossa população, que trouxe para as grandes cidades as variedades linguísticas mais estigmatizadas, características da zona rural e, hoje, do cinturão urbano que rodeia nossas metrópoles.
O discurso em “defesa” da “língua portuguesa” supostamente ameaçada (por seus próprios falantes nativos...) começou a se tornar mais audível e visível nas manifestações de purismo linguístico dos grandes meios de comunicação. A partir dos anos 1990, esse fenômeno — que gosto de chamar de comandos paragramaticais — ganha espaço na televisão, no rádio, nos jornais, nas revistas e na internet. Ressurgem, com roupagem tecnológica avançada, os antigos “consultórios gramaticais” da imprensa da primeira metade do século XX, quando imperavam figuras como o filólogo português Cândido de Figueiredo, nada cândido em suas diatribes reunidas sob o título parnasiano O que não se deve dizer, com apossínclise e tudo, e o gramático brasileiro Napoleão Mendes de Almeida, autor de um Dicionário de questões vernáculas onde o preconceito social é explícito e assumido contra “cozinheiras, engraxates, trombadinhas e infelizes caipiras”, conforme suas próprias palavras.
As grandes empresas de comunicação parecem querer assumir o lugar de depositárias das “belas letras” e do “bom português” que a literatura moderna e contemporânea foi abandonando aos poucos, graças às novas tendências estéticas de experimentação com a linguagem de valorização e estilização das variedades linguísticas desprestigiadas, de veiculação de crenças e ideologias antielitistas, de concessão de voz literária às camadas marginalizadas da sociedade, de hibridização intensa dos gêneros literários tradicionais etc.
Essas manifestações reacionárias do purismo linguístico nos meios de comunicação se chocam violentamente contra as diretrizes oficiais do ensino de língua, que — no Brasil e no mundo — procuram incorporar e aplicar avanços das pesquisas da linguística teórica e aplicada. Parâmetros curriculares nacionais, programas de formação continuada de docentes, programas de incentivo à leitura, de distribuição de material didático, entre tantos outros levados a efeito pelas instâncias superiores da educação brasileira, negam peremptoriamente a validade do discurso purista diante do conhecimento acumulado pelas ciências da linguagem acerca da realidade do português brasileiro:
A imagem de uma língua única, mais próxima da modalidade escrita da linguagem, subjacente às prescrições normativas da gramática escolar, dos manuais e mesmo dos programas de difusão da mídia sobre “o que se deve e o que não se deve falar e escrever”, não se sustenta na análise empírica dos usos da língua. (Parâmetros Curriculares Nacionais. Língua Portuguesa. 3º e 4° ciclos do Ensino Fundamental. Brasília: MEC, 1998, p. 29)
Infelizmente, porém, essas vozes puristas têm grande audiência entre nós. Isso se deve, entre outras coisas, à transformação da “língua certa” em objeto de desejo precisamente das emergentes camadas C, D, e E, que reconhecem em seus modos de falar grandes diferença com relação aos usos considerados “cultos” e tentam conquistar essa língua idealizada com vistas a uma suposta ascensão social que esse conhecimento permitiria. Essa demanda é atendida pelo mercado com a transformação dessa “língua” num bem de consumo supostamente acessível a todos e disponível sob as mais diferentes embalagens e modelos (programas de televisão e de rádio, colunas de jornal e de revista, programas para computador, CD-roms, livros, revistas, fascículos, sites na internet, cursos, tira-dúvidas por telefone, manuais de redação das grandes empresas jornalísticas etc.). Ora, a estratégia publicitária clássica para a venda de qualquer produto é convencer o potencial consumidor da necessidade de preencher alguma carência essencial. Assim, num país em que o acesso à boa educação sempre foi restrito e em que se cristalizou na mentalidade comum o mito de que “brasileiro não sabe português”, nada é mais fácil do que conquistar essa clientela ávida por uma “língua” boa, segura e com selo de qualidade conferido por autoproclamados especialistas na matéria.
In: Gramática pedagógica do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.
Leia o período reproduzido a seguir:
No entanto, o suposto conhecimento do “português correto” é uma mera fachada para justificar o emprego de outros instrumentos, mais complexos e sofisticados, destinados a preservar a desigualdade social.
O uso das aspas sinaliza que o autor do texto
ratifica a ideia de que há um português correto.
discorda da ideia de que há um português correto.
explicita a ambiguidade da expressão entre aspas.
considera de uso informal a expressão entre aspas.