Uso desmedido do celular está cada vez mais ligado a problemas físicos e mentais
Por Diogo Sponchiato e Victória Ribeiro
- ___Nomofobia, FOMO, text neck, cibercondria, dependência digital... O dicionário de males
- plantados pela vida entre telas — quase todos com nomes derivados do inglês, a língua-mãe da
- comunicação on-line — não para de ganhar novas expressões. Não são patologias propriamente ditas,
- dessas com nome, sobrenome e código no receituário, mas preocupam médicos e pacientes por seus
- impactos cada vez mais expressivos no __________. O motivo está à sua mão ou vista: o aparelho
- que nos acompanha para conversar, trabalhar, relaxar e pedir comida. Se cada época tem suas
- bênçãos e maldições, o celular do qual a sociedade já não pode se desgarrar é o símbolo máximo e
- tangível de que as comodidades e a conexão têm seu preço. Um preço cobrado na forma de distúrbios
- físicos e mentais que hoje protagonizam pesquisas científicas e são alvo de novas leis para resguardar
- __________ de todas as idades de um aparelho que cabe no bolso, mas, quando sai de lá (e como
- sai), pode incitar doenças já consagradas nos manuais médicos.
- ___Semana sim, outra também, é publicado um estudo mostrando os efeitos colaterais e nocivos
- da onipresença das telas. Entre aqueles mais esperados e conhecidos, estão as repercussões
- psicológicas. Um novo trabalho do Imperial College London, na Inglaterra, com base em dados de
- 2.000 crianças e adolescentes, constatou que aquelas que ficavam mais de três horas por dia
- navegando nas redes sociais estavam mais expostas a ansiedade e depressão. Mas há consequências
- inusitadas também. Pesquisadores sul-coreanos detectaram que a postura e os movimentos cobrados
- pelo smartphone aumentam a formação de rugas na região do pescoço entre mulheres com menos
- de 30 anos — o esperado é que os vincos surjam depois dos 40.
- ___Os brasileiros estão entre os povos mais conectados do planeta: são, em média, nove horas na
- internet diariamente. A grande questão é que, entre o estudo, o emprego e a diversão, a maquininha
- drena tempo, atenção e energia sem que a maioria das pessoas se dê conta. Mas basta algo sair do
- trilho (ou da tela) para começarem os problemas. “Hoje vemos uma necessidade crescente entre os
- indivíduos de permanecerem conectados, e há queixas frequentes de irritabilidade ou sofrimento
- quando há perda ou restrição do acesso”, diz a psicóloga Carla Cavalheiro, do Instituto de Psiquiatria
- da USP. O desafio é que plataformas como as redes sociais, a um toque dos dedos, são programadas
- para pescar a atenção do usuário. E, se o cérebro curtir a isca, ficará horas fisgado. Cada vez mais
- cientes desse cenário propício ao descontrole, as autoridades começam a tomar medidas, amparadas
- na lei, para mitigar os danos, que, além da saúde mental, também podem afligir os olhos, a coluna...
- ___Trata-se de um comportamento que realmente tem as características de um vício. Embora a
- dependência digital ainda não seja uma classificação diagnóstica formal, especialistas afirmam que
- vem decolando o número de pacientes que procuram ajuda para ter uma relação mais equilibrada
- com a peça. “São pessoas com prejuízo funcional, sofrimento psíquico e perda de controle”, descreve
- Cavalheiro. “Elas vão negligenciando outras áreas da vida e continuam usando o aparelho mesmo
- percebendo os impactos negativos”.
- ___Para não deixar a situação se desgovernar lá adiante, já há um consenso de que o uso de telas
- deve ser restringido na infância. Factível ou não, a missão dos pais começa a ser amparada por
- políticas públicas, como a proibição de celulares nas escolas brasileiras. “Um menino que passa oito
- horas por dia numa tela está sendo destruído. Isso deteriora sua capacidade de prestar atenção e sua
- saúde mental”, afirma o pediatra Daniel Becker. E não é só o __________ psíquico que será cobrado
- no futuro. A vida em ambientes fechados e cercada de telas já foi associada ao crescimento
- astronômico dos casos de miopia — metade do planeta deverá usar óculos até 2050 —, ao
- sedentarismo, que alimenta a pandemia de obesidade, e a uma porção de problemas posturais e
- ortopédicos que resultam em dores. A coluna que o diga. A cena é conhecida: cabeça inclinada,
- ombros projetados para a frente, olhar fixo na tela... “Repetida à exaustão, essa postura vai prejudicar
- a região cervical, podendo comprometer ombros, cintura e punhos e gerando dores persistentes”, diz
- o ortopedista Luiz Felipe Ambra. É assim que o celular se torna um propulsor de dores crônicas, que
- atacam até os dedos que não desgrudam da tela.
(Disponível em: https://veja.abril.com.br/saude/uso-desmedido-do-celular-esta-cada-vez-mais-ligado-a-problemas-fisicos-e-mentais – texto adaptado especialmente para esta prova).