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Analise o trecho abaixo para responder à questão 6.“Percebo...

Leia o texto abaixo para responder às questões de 1 a 8.


Slime na airfryer


Tem umas horas da paternidade em que não adianta recorrer a uma pediatra ou a um psicopedagogo, é inútil ler "Crianças francesas não fazem manha" ou toda a bibliografia da clínica Tavistock: você precisa é de um bom advogado.

Calma. Meu intuito não é buscar indenização da filha que, inclinada à ciência, resolveu testar o método empírico cozinhando meio quilo de slime na airfryer.

Eis o caso. Meu filho de oito pega o iPad. Minha filha de dez surge na sala e diz "eu também quero o iPad!". Meu filho argumenta que ela usou o iPad a noite passada inteira. Hoje é a vez dele. Parece sensato. A promotoria, no entanto, apresenta seu caso de forma mais específica: "eu usei a noite inteira porque ele não me pediu pra usar. Se ele tivesse pedido, eu teria proposto meia hora cada um". Segundo o argumento, que me parece lógico, como hoje ela está pedindo, ele deve aceitar meia hora cada um.

A abstração que ela me propõe é bem complexa. Me diz: ele tinha o direito de usar o iPad ontem e não usufruiu. Eu tenho o direito de usar o iPad hoje e quero usufruir. Meu filho argumenta que não sabia que, se quisesse usar o iPad a cada meia hora, ontem, ele tinha o direito. Ela rebate: não sabia porque não pediu pra usar.

Sem dúvida, são questões que “extrapolam” o Código Civil e o Penal, adentrando a complexa seara da filosofia do direito. Sentindo-me um ignorante completo, penso em me sair com uma atitude bem anos 80: “ninguém vai usar o iPad nem ver TV! Chega! Acabou! Vão brincar de massinha! E longe da airfryer!”

Percebo, no entanto, que essa truculência é totalmente fora de propósito, de razão e de época. Nada mais errado na educação do que regras sem sentido. Preciso ganhar tempo. Escapulo pro banheiro. Tranco a porta. Ligo pro meu amigo Beto, advogado.

Beto é das pessoas mais brilhantes que eu conheço. Já lidou com assassinos, corruptos, falências, fusões, aquisições e – pior – divórcios. Sussurro no telefone: “Beto, tá podendo falar?”. “Manda!”. Explico a situação. Ele reflete por um momento. “Do ponto de vista legal, se ela teve o iPad por uma noite, ele deve ter o iPad por uma noite. Só a partir de amanhã é que se deve começar o rodízio de meia hora cada um”.

Saio do banheiro seguro e dou o veredito. Os dois aceitam. Sinto-me um pai bom, justo, contemporâneo. Minha filha se senta na poltrona, diante da TV. Meu filho encrenca: “eu quero sentar na poltrona!”. Minha filha retruca: “ele ficou a noite passada inteira na poltrona!”. Confisco o iPad, desligo a TV. Mando-os brincar de massinha. E quem não estiver contente que ligue pro Beto e me processe.


(Antonio Prata. Adaptado).

Analise o trecho abaixo para responder à questão 6.


“Percebo que essa truculência é totalmente fora de propósito, de razão e de época. Nada mais errado na educação do que regras sem sentido”.


Assinale a alternativa que apresenta uma paráfrase correta do trecho acima.


A

Identifico que seria uma violência sem objetivo, anacrônica e insensata. Não haveria nada pior em termos de educação do que mandá-los fazer algo sem apresentar justificativa.


B

Percebo que seria uma violência sem objetivo, insensata, mas própria do tempo em que vivemos. Não haveria nada pior em termos de educação do que colocar qualquer tipo de regra.


C

Dou conta de que seria uma medida muito branda, sem sentido, sem objetivo, mas parte da educação da nossa época. Nada mais errado do que regras aleatórias.


D

Entendo que não devo ser tão radical, pois não haveria objetivo e estaria sendo anacrônico, apesar de ser uma medida racional, porque nada melhor do que dar limites aos filhos.