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Exerce função predicativa o termo transcrito em

AS QUESTÕES DE 1 A 18 ESTÃO RELACIONADAS AO TEXTO ABAIXO

TEXTO

BEM-VINDOS À ERA DA CONFUSÃO

1Na semana passada, uma eleição presidencial que deveria ter como marca a volta da democracia

2 ao Zimbábue terminou em confusão quando contas falsas no Twitter, no Facebook e no WhatsApp

3 disseminaram resultados contraditórios. O país inteiro chegou a presenciar comemorações espontâneas

4 pela vitória dos dois candidatos, o que resultou em confrontos violentos. Em um clima geral de

5 desconfiança, até observadores internacionais não sabiam onde obter informações confiáveis. Toda essa

6 situação permite prever que o próximo governo enfrentará uma crise de legitimidade desde seu primeiro

7 dia.

8Na Índia, o governo empreende verdadeira batalha contra uma onda de linchamentos depois que

9 rumores falsos viralizaram no WhatsApp sobre supostos sequestradores de crianças. Nacionalistas

10 interessados em atiçar o ódio religioso usam a plataforma para aprofundar a polarização, que também tem

11 resultado em linchamentos. Em resposta, o WhatsApp limitou a 20 pessoas por vez, o número de contatos

12 para os quais cada usuário pode encaminhar mensagens, buscando, assim, atrasar a viralização das

13 notícias. A medida é mero paliativo, uma vez que as pessoas tenderão a buscar outros aplicativos sem

14 essa limitação.

15 Nos Estados Unidos, em vista das eleições legislativas de novembro, o Facebook tem se

16 esforçado para reagir a um amplo ataque de fake news. Estima-se que 40% dos eleitores dos EUA foram

17 expostos a notícias falsas durante a eleição presidencial de 2016. Em uma reviravolta inesperada, agora

18 elas se voltam contra o presidente Donald Trump. O objetivo dos propagadores de fake news, muitos dos

19 quais vivem na Rússia, não é apoiar um candidato ou outro, mas gerar confusão generalizada, polarização

20 e desconfiança na própria democracia. Assim como muitos democratas questionam a legitimidade do

21 presidente, muitos republicanos poderão vir a questionar a legitimidade do Congresso dos EUA - que,

22 agravando ainda mais a situação, poderia dar início a um processo de impeachment contra Trump.

23 Nunca antes a democracia dos EUA enfrentou ameaça tão séria.

24 Na Grã-Bretanha, 52% dos eleitores votaram por deixar a União Europeia em 2016, atraídos por

25 uma enxurrada de informações falsas disseminadas por nacionalistas oportunistas. Em uma pesquisa

26 recente, uma porcentagem semelhante dos britânicos disse acreditar que os desembarques na Lua de 1969

27 a 1972 eram falsos. A triste ironia é que, pela primeira vez na história, a maioria dos cidadãos pode

28 carregar no bolso todo o conhecimento do mundo, mas, ao mesmo tempo, nunca esteve tão vulnerável a

29 informações falsas.

30 Engana-se quem pensa que algumas mudanças nas leis e ajustes técnicos podem resolver a

31 situação e permitir que tudo volte a ser como antes. A humanidade testemunha os primeiros momentos

32 de uma nova era em que todo o relacionamento com a informação - e a realidade como um todo - mudará

33 de maneira hoje inimaginável. A democracia, tal como se concebe hoje, dificilmente sobreviverá a essa

34 transformação.

35 Basta considerar duas grandes tendências. A primeira: apenas 50% da população mundial tem

36 acesso à internet hoje. Nos próximos anos, a outra metade, potencialmente ainda mais vulnerável a

37 notícias falsas, também poderá participar do debate online. Por exemplo, muitos aplicativos populares no

38 mundo em desenvolvimento concentram-se apenas em mensagens de voz, já que parcela considerável de

39 seus usuários não sabe ler nem escrever, dificultando ainda mais a identificação de

40 informações falsas.

41 A segunda: o desenvolvimento de ferramentas baseadas em inteligência artificial, capazes de

42 manipular ou fabricar vídeos, arquivos de áudio e fotos falsas - as chamadas deep fakes - ampliará

43 consideravelmente a dificuldade de separar fato de ficção, o que fará as fake news de hoje parecerem

44 brincadeira de criança.

45 Daqui a alguns anos, um smartphone será suficiente para simular uma sequência de notícias,

46 como as da CNN, por exemplo, na qual a perfeita imitação da voz de um apresentador famoso reportaria

47 um golpe militar em Washington ou um anúncio da Casa Branca sobre uma guerra iminente, sem meio

48 técnico para confirmar ou negar sua veracidade. Em uma futura eleição presidencial no Brasil, não será

49 mais necessário atacar os concorrentes - pode-se simplesmente produzir um vídeo em que o rival promete

50 que, se eleito, encerrar o programa Bolsa Família, eliminar a propriedade privada ou qualquer absurdo

51 que o faça perder apoio. Confusos e desconfiados, os cidadãos se refugiarão ainda mais em suas bolhas

52 aparentemente seguras, isolados em relação a qualquer tipo de debate público.

53 Heather Bryant, jornalista afiliada à Universidade Stanford, escreveu recentemente que

54 jornalistas, mesmo nos melhores jornais do mundo, estão totalmente despreparados para distinguir fato

55 de ficção ao analisar deep fakes. Para complicar ainda mais a situação, há evidências crescentes de que

56 internautas parecem realmente preferir notícias falsas: em um estudo recente de Soroush Vosoughi, um

57 pesquisador do MIT, conclui que as informações falsas têm 70% mais chances de serem retuitadas do que

58 notícias verdadeiras.

59 O impacto na política externa será igualmente expressivo. O interminável ciclo de notícias falsas

60 e a rápida disseminação de opiniões extremas (ou, por exemplo, falsos vídeos de atrocidades cometidas

61 por outro país) reduzirão o espaço de negociações tranquilas para se chegar a compromissos aceitáveis

62 para todos os envolvidos. Em 1945, delegados de 50 países se reuniram em São Francisco para desenhar

63 a ordem global pós-Guerra. Foram oito semanas de negociação, com poucas interrupções. Hoje, o mesmo

64 seria praticamente impossível. A necessidade de adotar posições em minutos, instantaneamente acessíveis

65 em todo o mundo, afeta a capacidade da diplomacia de reduzir o risco de conflitos.

66 O debate sobre como salvar a democracia acabou de começar. Não existem soluções fáceis, e há

67 anos de tentativas e erros dolorosos adiante - como testemunhado hoje no Zimbábue, na Índia, nos Estados

68 Unidos, no Reino Unido e em tantos outros países. O único erro que não se pode cometer é fingir ser

69 possível, de alguma forma, voltar aos velhos tempos.

Extraído de El PAÍS - https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/06/opinion/1533562312_266402.html

Exerce função predicativa o termo transcrito em


A

“inimaginável” (L.33).


B

“confusos” (L.51)


C

“seguras” (L.52)


D

“interminável” (L.59).