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TEXTO I
O trecho a seguir é uma adaptação da introdução presente no livro Pálido Ponto Azul, de Carl Sagan.
Pálido Ponto Azul
Os Errantes: uma introdução
Fomos errantes desde o início. Conhecíamos a posição
de todas as árvores num raio de duzentos quilômetros.
Quando os frutos ou as castanhas amadureciam, lá
estávamos nós. Seguíamos os rebanhos em suas migrações
5 anuais. Deleitávamo-nos com a carne fresca. Por ações
furtivas, estratagemas, emboscadas e ataques de força bruta,
alguns de nós realizávamos em conjunto o que muitos de nós,
sozinhos, não podíamos conseguir. Dependíamos uns dos
outros. Viver por conta própria era uma ideia tão absurda
10 quanto fixar residência.
Durante 99,99% do tempo, desde o aparecimento de
nossa espécie, fomos caçadores e saqueadores, errantes nas
savanas e nas estepes. Éramos limitados apenas pela Terra,
pelo oceano e pelo céu – e mais alguns eventuais vizinhos
15 rabugentos. Domesticamos as plantas e os animais. Apesar
de todas as suas vantagens materiais, a vida sedentária nos
deixou irritáveis, insatisfeitos. A minha suspeita é de que o
apelo tem sido meticulosamente elaborado pela seleção
natural, como um elemento essencial de nossa sobrevivência.
20 Talvez você deva sua vida a uns poucos inquietos.
A primeira grande migração humana do Velho Mundo
para o Novo Mundo aconteceu durante a última era glacial.
Muito antes de Colombo, argonautas indonésios exploraram o
Pacífico Ocidental; habitantes de Bornéu povoaram
25 Madagascar; egípcios e líbios circunavegaram a África; e,
partindo da China, uma grande frota da dinastia Ming
ziguezagueou pelo Oceano Índico, estabeleceu uma base em
Zanzibar, dobrou o Cabo da Boa Esperança e entrou no
oceano Atlântico. Do século XV ao século XVII, as naus
30 europeias descobriram novos continentes (novos para os
europeus, pelo menos) e circunavegaram o planeta. Nos
séculos XVIII e XIX, exploradores, mercadores e
colonizadores norte-americanos e russos precipitaram-se
para Oeste e para Leste atravessando dois imensos
35 continentes até chegarem ao Pacífico. Esse gosto de
investigar e explorar, por mais temerários que tenham sido
seus agentes, tem um claro valor e sobrevivência. Ele não é
restrito a uma única nação ou grupo étnico. É um dom natural
comum a todos os membros da espécie humana.
40 Desde o nosso aparecimento, seguimos nosso caminho.
Agora existem pessoas em todos os continentes até,
ocasionalmente, residindo trezentos quilômetros acima da
Terra. As grandes migrações de povos – algumas voluntárias,
a maioria involuntária – têm moldado a condição humana.
45 [...]
Nossos antepassados distantes, observando as estrelas,
notaram cinco que faziam mais que se levantar e pôr-se numa
marcha impassível, como era o caso das assim chamadas
estrelas “fixas”. Essas cinco tinham um movimento curioso e
50 complexo. Ao longo dos meses, pareciam errar lentamente
entre as estrelas. Às vezes, andavam em círculo. Hoje nós as
chamamos de planetas, a palavra grega para errantes. Era,
assim imagino, uma peculiaridade que nossos antepassados
compreendiam.
55 Descobrimos maravilhas jamais sonhadas pelos nossos
antepassados que especulavam pela primeira vez sobre a
natureza dessas luzes errantes no céu noturno. Investigamos
as origens de nosso planeta e de nós mesmos. Descobrindo
outras possibilidades, confrontando-nos com os destinos
60 alternativos de mundos mais ou menos parecidos com o
nosso, temos começado a compreender melhor a Terra. Cada
um desses mundos é encantador e instrutivo. Mas, que se
saiba, são também desertos e áridos. No espaço, não existem
“lugares melhores”. Até agora, pelo menos.
65 Ninguém na Terra, nem mesmo o mais rico dentre nós,
tem recursos para empreender a viagem; assim, não
podemos fazer as malas e partir rumo a Marte ou Titã ao
sabor de um capricho, por estarmos entediados,
desempregados, oprimidos, ou porque, justa ou injustamente,
70 nos acusaram de um crime. Não parece haver lucro
suficiente, a curto prazo, para motivar a indústria privada. Se
nós, humanos, algum dia partirmos rumo a esses mundos,
será porque uma nação ou um consórcio de nações acredita
que o empreendimento lhe trará benefícios sendo
75 pressionados por um grande número de questões que
disputam o dinheiro necessário para enviar pessoas a outros
mundos.
Este é o tema desse livro: outros mundos, o que nos
espera neles, o que eles nos dizem sobre nós mesmos e –
80 dados os problemas urgentes que nossa espécie enfrenta no
momento – se faz sentido partir. Deveríamos resolver esses
problemas primeiro? Ou serão eles uma razão a mais para
partir?
[…]
85 Pálido ponto azul é sobre esse novo reconhecimento, que
ainda nos invade lentamente, de nossas coordenadas, de
nosso lugar no Universo – e de como um elemento central do
futuro humano se encontra muito além da Terra, embora o
apelo da estrada aberta esteja hoje emudecido.
(SAGAN, Carl. Pálido Ponto Azul: uma visão do futuro da humanidade no espaço. Tradução de Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. Adaptado).
Ao analisar o trecho “A minha suspeita é de que o apelo tem sido meticulosamente elaborado pela seleção natural, como um elemento essencial de nossa sobrevivência.” (Texto I, ℓ. 17-19), pode-se afirmar que:
o emprego da preposição “de” incorreu em erro de regência verbal. Além disso, a terceira pessoa do singular do verbo “ter” é identificada tanto pela desinência verbal quanto pela ausência de acento gráfico.
há uma oração subordinada substantiva subjetiva. Observa-se também que o termo “de nossa sobrevivência” classifica-se, sintaticamente, como adjunto adnominal.
há uma oração subordinada substantiva predicativa. Ademais, o emprego de vírgulas junto ao advérbio “meticulosamente” é facultativo.
remetendo a expressão “seleção natural” à teoria evolutiva de Charles Darwin, encontra-se um ponto de intertextualidade implícita no período. Além disso, o advérbio “meticulosamente” deveria estar isolado por vírgulas em virtude de estar intercalado.