Musculação reprograma células do fígado e ajuda a reverter danos da obesidade
Por Maria Fernanda Ziegler
- Estudo desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que os
- benefícios da musculação vão além do ganho de músculos e da perda de gordura. Em
- experimentos com camundongos, os pesquisadores observaram que o treinamento de força
- induz uma verdadeira reprogramação molecular no fígado. A descoberta ajuda a entender
- como a prática modula o funcionamento do genoma para mitigar a doença hepática
- esteatótica — condição caracterizada pelo acúmulo de gordura no órgão e intimamente ligada
- ao surgimento do diabetes tipo 2.
- “Queríamos entender como algo que ocorre nos músculos poderia interferir e beneficiar
- um problema no fígado. Para isso, fomos investigar o cerne do metabolismo, que é o nosso
- DNA. O objetivo foi compreender como a obesidade agride esse DNA e, depois, como a
- musculação consegue protegê-lo”, relata Leandro Pereira de Moura, professor da Faculdade
- de Ciências Aplicadas (FCA-Unicamp) e coordenador da pesquisa. Os resultados do estudo
- foram divulgados em novembro na revista Life Sciences.
- Para descobrir como o trabalho muscular impacta o fígado, a pesquisa focou na
- epigenética. Essa área da ciência avalia de que forma fatores externos — como hábitos de
- vida e condições ambientais — alteram o funcionamento dos genes sem modificar o código
- do DNA.
- Um dos fenômenos estudados é a metilação do DNA. Ela consiste na adição de uma
- molécula química (o grupo metil) na chamada região promotora do gene, que funciona como
- o “botão de ligar”, atuando como uma barreira física que torna o gene menos acessível para
- as enzimas da célula, inibindo a sua atividade. Nos experimentos com roedores, os
- pesquisadores verificaram que oito semanas de musculação foram suficientes para alterar a
- metilação do gene MTCH2 (homólogo 2 do transportador mitocondrial), fortemente envolvido
- na forma como o fígado processa e utiliza a energia.
- Como explica Moura, a obesidade obriga o fígado a trabalhar em um ambiente tóxico. O
- excesso de gordura se acumula nos hepatócitos — as principais células do fígado —,
- desencadeando uma inflamação crônica e falhas nas mitocôndrias, que são as “usinas de
- energia” celulares. O fígado busca se regenerar, mas, sem energia suficiente, esse processo
- falha. O tecido sadio vai sendo substituído por tecido cicatricial (fibrose) em um processo que
- destrói aos poucos a função do órgão. Nesse cenário de estresse extremo, o corpo desregula
- o funcionamento do gene MTCH2, acelerando ainda mais a progressão da doença. Nos
- experimentos, os cientistas observaram algo intrigante: embora as células do fígado até
- emitissem o comando genético (RNA mensageiro) para ativar o MTCH2, a quantidade final da
- proteína ligada a esse gene diminuiu. Segundo Moura, isso ocorre porque a musculação
- devolveu a capacidade energética ao órgão e reduziu a inflamação. Ao perceber que o
- ambiente não era mais tóxico, o organismo desligou o “modo de emergência”. Sem o estresse
- celular e os sinais de autodestruição, o próprio corpo bloqueou as etapas finais de formação
- dessa proteína.
- Um dos papéis do fígado é ajudar a manter estável o nível de açúcar no sangue
- (glicemia) para garantir o funcionamento dos órgãos. Sob o comando da insulina, o fígado
- armazena o açúcar excedente na forma de glicogênio; já nos períodos de jejum, ele libera
- essa reserva na corrente sanguínea. Em condições normais, a insulina funciona como um
- mensageiro que avisa o fígado para parar de liberar glicose quando o corpo já está abastecido.
- Mas quando o órgão está sufocado pela gordura e inflamado, ele desenvolve resistência à
- insulina, ou seja, fica “surdo” a esse aviso. Um dos achados da pesquisa é que, nos roedores
- obesos que praticaram treinamento de força, o fígado recuperou a sensibilidade à insulina.
- Os resultados também indicam que a atividade física inibiu a ação de enzimas que
- causam a fibrose e o crescimento celular desordenado. E impulsionou a produção de ATP5,
- proteína essencial para a geração de energia mitocondrial. “Com energia abundante, as
- células saem do estado de alerta e deixam de ativar o gene MTCH2, favorecendo a
- regeneração do tecido”, resume Moura. “Levantar pesos fortalece não só os músculos, mas
- também controla como o DNA do fígado funciona”.
(Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/saude/noticia/2026/07/musculacao-reprograma-celulas-do-figado-e-ajuda-a-reverter-danos-da-obesidade.ghtml – texto adaptado especialmente para esta prova).