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Quanto à tipologia predominante, o texto classifica-se como

TEXTO I (para as questões de 11 a 17)


O Lixo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.

— Bom dia.

— Bom dia.

— A senhora é do 610?

— E o senhor do 612.

— É.

— Eu ainda não o conhecia pessoalmente...

— Pois é.

— Estava revendo a sua vida no seu lixo.

— Como?

— O seu lixo. O conteúdo do seu pacote.

— Ah...

— O senhor fuma?

— Um pouco.

— Três maços por dia.

— Como é que a senhora sabe?

— Pelas embalagens.

— Ah.

— E é vegetariano.

— Sei... A senhora também examina as cascas de legumes?

— Examinar não é bem a palavra. Elas saltam aos olhos. O senhor não come carne. O senhor não gosta de frango, nem de peixe. Só de cenoura, chuchu e abóbora.

— É que eu estou num regime.

— Sei. E toma muito vinho.

— É para o coração. Me disseram que uma taça de vinho tinto...

— Duas garrafas de "Gato Negro" por dia?

— Bem...

— E o senhor gosta de ler.

— Como é que a senhora sabe?

— Pelas revistas de informática.

— Ah.

— E o senhor está com um problema de pele.

— Isso a senhora não pode saber. Não joguei nada fora que...

— O senhor comprou um creme para dermatite. A bisnaga estava vazia.

— É verdade.

— E o senhor é muito sozinho.

— Por que a senhora diz isso?

— Pelos catálogos de pedidos pelo telefone. O senhor pede tudo em casa. E pelas quentinhas. O senhor não cozinha.

— É...

— O senhor não mora com ninguém. No seu lixo só tem material de uma pessoa.

— É verdade. Mas e o seu lixo?

— O meu

— A senhora é casada, tem dois filhos, um deles ainda usa fraldas, o outro gosta de iogurte de morango, o seu marido fuma charutos, a senhora usa hidratante caro, joga fora muitas flores...

— Como é que o senhor sabe tudo isso?

— No seu lixo tem fraldas, copos de iogurte, pontas de charuto, potes vazios de creme francês e muitas flores murchas.

— Engraçado...

— O quê?

— Eu sempre achei que o lixo fosse a coisa mais particular de uma pessoa. Mas o lixo é público.

— Pois é. Os dois ficaram em silêncio por um tempo.

— O senhor quer jantar comigo hoje à noite?

— O quê?

— É que hoje eu não vou produzir lixo. Vou comer fora. E se o senhor quiser me acompanhar...

— Aceito.

— Ótimo. Só uma coisa.

— O quê?

— No meu lixo você não viu nenhuma embalagem de veneno, viu?


(Luiz Fernando Veríssimo)

Quanto à tipologia predominante, o texto classifica-se como


A

dissertativo-argumentativo, pois defende a tese de que o lixo deve ser reciclado.


B

narrativo, pois apresenta personagens, tempo e espaço através de uma sequência de ações e diálogos.


C

descritivo, visto que o foco único é a caracterização física dos objetos encontrados no lixo.


D

injuntivo, porque ensina o leitor a identificar os hábitos de seus vizinhos pelo descarte.


E

dissertativo, pois apresenta dados científicos sobre o consumo de álcool e tabaco na sociedade.