Imagem de fundo

Assinale a alternativa que apresenta um trecho que pode ser...

A saudade é azul


Por Adriana Antunes


  1. Abro as janelas e os dias seguem cinzas. Confesso que já gostei mais de dias assim. Hoje
  2. prefiro claridade e calor. Prefiro azul. O mundo é azul nas .... . Dias atrás relembrei um
  3. ensinamento do tempo da escola, mas que havia esquecido, de que não existe céu. O céu é
  4. apenas um fenômeno. Esse azul que vemos é a luz que se perdeu. É a ponta azul do espectro
  5. que vemos. Mas a parte científica não tem poesia. Os dias azuis são mais oníricos e
  6. melancólicos, pois nos remetem aos lugares mais distantes. O azul é a cor da saudade das
  7. distâncias que nunca alcançaremos. O azul é a distância entre nós.
  8. Tenho lido Simone Weil, volta e meia. E ela diz, numa de suas explicações filosóficas, que
  9. aqueles que não se amam nunca se separam. Daí, penso neste azul que nos separa de amigos
  10. queridos. Estamos todos carentes de amizades. Todos sem tempo e sem espaço para uma
  11. conversa. Há um azul que nos distancia da adolescência, quando viver só fazia sentido se
  12. compartilhado com os amigos. Depois, em algum ponto da vida adulta, isso se perde. Um azul
  13. .... nos separa de quem fomos. Nos separa uns dos outros também. Talvez eu esteja
  14. melancolicamente azul nesta crônica. O longe se infiltra mesmo que estejamos próximos.
  15. Afinal, nós também mal conhecemos nossas distâncias e profundezas. Assim, vestimos lonjuras
  16. e nos mantemos distantes, sejam por coisas ditas ou não ditas.
  17. Minha casa de infância era azul. Uma casa que não existe mais e até mesmo em sonhos
  18. ela começa a desaparecer. Deve ser a idade. Nunca estive tão longe do começo. Guardo a
  19. imagem como uma memória cintilante na cianotipia do tempo. Vejo algumas fotos daquela
  20. época e o longe se torna perto, ao mesmo tempo que os dois não são o mesmo lugar. Os dias
  21. cinzas se sucedem e eu me lembro do azul do mar.
  22. Uma vez, numa época complicada, estava dentro do mar e senti como se eu fizesse parte
  23. do todo. Uma sensação estranha e sem vocabulário. Para Deleuze, que tanto amo, um devir.
  24. Há coisas em nós que são um mistério insondável e tentar explicar não reproduz os abismos.
  25. Há quem ainda prefira o inverno, assim como o eu de antes. Hoje atravesso a estação ___
  26. espera do azul. E pensar que ele nem começou ainda. Eu nasci no inverno. Mas o azul da
  27. distância só vem com o tempo, com a descoberta da tristeza, da melancolia, da perda. A
  28. saudade é feita de .... do tempo. E é azul. Lembro de meus amigos que ___ tempos não vejo,
  29. não abraço. Mas como diz Rebeca Solnit, certos afetos só continuam existindo em nós enquanto
  30. perdidos e outros não se perdem porque permanecem distantes.


(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2026/06/a-saudade-e-azul-cmqfm2azy009p012tf5834oau.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa que apresenta um trecho que pode ser transposto para a voz passiva.


A

“Minha casa de infância era azul”.


B

“Uma casa que não existe mais”.


C

“Vejo algumas fotos daquela época”.


D

“Nunca estive tão longe do começo”.