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TEXTO: O MAJOR E O VIOLÃO
Lima Barreto
Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido como Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, às vezes, e sempre pão da padaria francesa.
Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às três e quarenta, por aí assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de São Januário, bem exatamente às quatro e quinze, como se fosse a aparição de um astro, um eclipse, enfim um fenômeno matematicamente determinado, previsto e predito.
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Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos, que o julgavam esquisito e misantropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera, fora a do doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para que? Pedantismo! !”
O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se abriam as janelas da sala de sua livraria, poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.
Eram esses seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; isso provocara comentários no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria?
E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga, e ambas levaram um tempo perdido, de cá pra lá, a palmilhar o passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante da janela aberta do esquisito subsecretário.
Não foi inútil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal sujeito, empunhando o “pinho” na posição de tocar, o major atentamente, ouvia: “Olhe major, assim”. E as cordas vibravam vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre aduzia: “É ré, aprendeu”?
Mas não foi preciso pôr na carta; a vizinha concluiu logo que o major aprendia a tocar violão. Mas que cousa! Um homem tão sério metido nessa malandragem!
( Triste Fim de Policarpo Quaresma. Editora Brasiliense, São Paulo, 1961 )
O texto destaca a rotina de Policarpo Quaresma principalmente para:
Mostrar que ele era um homem aventureiro e imprevisível.
Indicar que ele não gostava de trabalhar no Arsenal de Guerra.
Evidenciar seu comportamento metódico e rigorosamente organizado.
Demonstrar que ele se atrasava frequentemente para casa.
Revelar sua preocupação excessiva com os vizinhos.