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O ordinário do cotidiano
Por Cristina Fontenele
01 Quem repara no ordinário do cotidiano? Nos diálogos em fila de supermercado, no
02 guardanapo voando da mesa, em quanta gente usa ecobag, no estranho que lança um “bom dia”
03 ao cruzar com alguém pelo caminho, no rapaz puxado pelo próprio cão? Onde tudo isso fica
04 registrado? Talvez na memória de quem o viveu ou no inconsciente de algum observador. Para
05 o escritor, o rotineiro torna-se material de trabalho.
06 Por esses dias, participei de uma conversa mediada por um historiador junto a dois
07 escritores brasileiros. Falamos sobre a poética do cotidiano para além do Atlântico e como essas
08 percepções transformam-se em crônicas. Esse justo espaço que temos aqui tratando do breve e
09 vulgar da vida comum.
10 Refletimos sobre a familiaridade e o estranhamento de alguém que está deslocado de seu
11 território e contempla a cidade com ressalva e interesse. Um olhar imigrante que escreve sobre
12 o diverso jeito de estar no mundo. E que, mesmo quando se acostuma com as ruas, com as
13 pessoas, renova o senso de encantamento para continuar enxergando o simples. A curiosidade
14 do cronista é uma lupa que extrai da miudeza, do detalhe, a inspiração para palavras que podem
15 chegar não se sabe onde nem a quem. Mas quando conectam, suspendem o instante.
16 Cruzamos nossas vivências de Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Lisboa e Porto para
17 contar o que nossos sentidos percebem como casa, pertencimento e rejeição. Um dos escritores
18 relatou a frase que ouviu de um desconhecido no metrô, logo no primeiro deslocamento lisboeta:
19 “Brasileiros, deviam morrer todos”. Entre susto e questionamento, decidiu que a declaração não
20 definiria seus dias de viagem tampouco generalizaria um povo.
21 Já o mediador da mesa partilhou o preconceito que experimentou há alguns anos enquanto
22 recifense participando de um evento sobre História Política no Rio de Janeiro. Na conversa,
23 emergiram as conhecidas fricções entre Nordeste/Sudeste brasileiros, somaram-se também o
24 São João do Cariri e do Porto, as periferias cariocas e lisboetas numa linguagem que abordou o
25 paradoxo das interações.
26 O renomado geógrafo brasileiro Milton Santos foi citado no debate para lembrar que o lugar
27 vai muito além do espaço geográfico. É nele onde o ser humano estabelece suas relações e a
28 dinâmica da vida, a cooperação e o conflito, além de um cotidiano compartilhado. O lugar implica
29 as experiências que o sujeito irá acessar ou não ao longo da sua existência. Repercute também
30 no “lugar de fala”, conceito tão difundido pela escritora Djamila Ribeiro.
31 De onde partimos quando falamos? Quais privilégios ou faltas moldam nossas percepções?
32 Conversamos ainda sobre os possíveis impactos que um texto promove. Sendo o cronista
33 uma espécie de testemunha vigilante que aponta obviedades: a folha em formato de coração na
34 beira da calçada, o tipo de lixo descartado por cada um, o desejo pelas comidas da terra. Ou a
35 redução de abraços desde quando alguém migra, como bem destacou a escritora brasileira
36 integrante da prosa.
37 A crônica não se propõe a dar lição de moral, mas não resulta em um texto alienado, embora
38 tenha “a seriedade das coisas sem etiqueta”, na definição do escritor Ferreira Gullar. É um gênero
39 que sabe sobre a Copa do Mundo, a onda de calor pela Europa, o endividamento pelos jogos de
40 aposta, a demissão do primeiro-ministro britânico. Ainda assim, o cronista escolhe também
41 perguntar se alguém adota o domingo como aquele tempinho para fazer só o que der vontade,
42 repetir o café da manhã vezes sem conta e se maravilhar com a foto de uma flor enviada por
43 um amigo numa viagem ao Peru.
(Disponível em: https://dnbrasil.dn.pt/opini%C3%A3o-dn-brasil/o-ordinrio-do-cotidiano – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando os trechos a seguir, retirados do texto, assinale a alternativa na qual há o emprego da voz passiva.
"O renomado geógrafo brasileiro Milton Santos foi citado no debate".
"Para o escritor, o rotineiro torna-se material de trabalho".
"Na conversa, emergiram as conhecidas fricções entre Nordeste/Sudeste".
"A crônica não se propõe a dar lição de moral".